A presença crescente da inteligência artificial nas escolas exige mais do que ensinar estudantes e professores a utilizar novas ferramentas. Para a Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC), a incorporação da tecnologia aos processos de ensino e aprendizagem deve estar acompanhada de formação crítica, responsabilidade e cuidado com as relações humanas.
A reflexão está em sintonia com o apelo feito pelo Papa Leão XIV aos participantes da primeira edição da conferência AI4Peace, realizada na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Em mensagem enviada ao encontro, no último dia 21, o Pontífice defendeu que o desenvolvimento da inteligência artificial seja orientado pela sabedoria e pela caridade e contribua para o diálogo, a reconciliação e a solidariedade entre os povos.
Para Leão XIV, os avanços tecnológicos precisam permanecer a serviço da dignidade de cada pessoa e do fortalecimento dos vínculos humanos.
Educação para além do uso das ferramentas
No campo educacional, o debate ganha importância à medida que sistemas de inteligência artificial passam a integrar atividades de pesquisa, produção de conteúdos e processos de aprendizagem.
Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, Leão XIV defende que educar para a inteligência artificial também significa ensinar às novas gerações a discernir quando e para quais finalidades essas tecnologias devem ou não ser utilizadas.
O documento chama a atenção para o risco de ferramentas cada vez mais sofisticadas diminuírem nos jovens o desejo de fazer perguntas. Nesse cenário, a escola permanece como espaço privilegiado para estimular a busca pela verdade, a curiosidade e o pensamento crítico.
A preparação dos educadores também ocupa lugar importante nesse processo. A proposta é que professores tenham condições de orientar os estudantes para uma utilização responsável, crítica e criativa das tecnologias, em vez de simplesmente incorporá-las às atividades escolares.
“A inovação deve estar sempre a serviço da pessoa”
Para a ANEC, alfabetizar para a inteligência artificial não pode significar apenas aprender comandos ou dominar plataformas. A educação precisa oferecer condições para que os estudantes compreendam os limites das tecnologias, avaliem informações, façam escolhas conscientes e desenvolvam relações humanas.
“A inteligência artificial traz possibilidades importantes para a educação, mas precisamos garantir que a inovação esteja sempre a serviço da pessoa. A formação integral, o pensamento crítico, os valores e as relações humanas precisam continuar no centro do processo educativo”, afirma a diretora-presidente da ANEC, irmã Iraní Rupolo.
A perspectiva apresentada pela associação aproxima o debate tecnológico da própria missão da educação católica: formar a pessoa em suas diferentes dimensões e prepará-la para atuar de maneira responsável na sociedade.
Tecnologia a serviço da dignidade e da paz
A discussão promovida pela AI4Peace amplia essa reflexão para além dos ambientes educacionais. Na mensagem aos participantes, Leão XIV pediu que pesquisadores, especialistas e instituições procurem caminhos para transformar os resultados da inovação tecnológica em instrumentos de paz.
Nesse horizonte, a inteligência artificial não é apresentada como um fim em si mesma. O critério para avaliar sua utilização está relacionado aos efeitos que produz sobre as pessoas, as relações e a sociedade.
No campo da educação, essa perspectiva coloca um desafio concreto para escolas e educadores: incorporar as possibilidades oferecidas pela IA sem transferir à tecnologia aquilo que pertence à responsabilidade humana de pensar, discernir, criar e se relacionar.
A ANEC representa a Educação Católica no Brasil e reúne 1.200 escolas e 79 instituições de Ensino Superior. Segundo a entidade, suas instituições estão presentes em 900 municípios e atendem mais de 1,5 milhão de estudantes.
