Resultado da Pesquisa CNBB

Pesquisa da CNBB reúne 11,5 mil jovens e aponta desafios para integrar fé, cuidado e participação

Levantamento sobre evangelização juvenil identifica valorização da espiritualidade, dificuldades emocionais e necessidade de adequar propostas pastorais às rotinas e aos diferentes momentos da vida; resultados descrevem o público alcançado, sem representar toda a juventude brasileira

Ronnaldh Oliveira, da redação

Jovens que realizam a récita do Terço semanalmente no Centro Cultural de Brasília. Compões a Pastoral da Diversidade da Arquidiocese de Brasília/Foto: João Paulo Sousa

A espiritualidade e a participação comunitária são reconhecidas como fontes de apoio por adolescentes e jovens que participaram da Pesquisa Nacional sobre Evangelização da Juventude no Brasil. Ao mesmo tempo, o levantamento registra dificuldades emocionais, sobreposição entre estudo e trabalho e obstáculos para encontrar grupos compatíveis com diferentes etapas da vida. Os resultados oferecem subsídios para o planejamento pastoral e para a revisão do Documento 85 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), referência para a evangelização das juventudes.

Realizada entre maio e julho de 2025, a pesquisa reuniu 11.498 participantes de todas as regiões do país. A iniciativa foi promovida pela Comissão Episcopal para a Juventude da CNBB, com participação do Observatório Juventudes da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), da Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade da Universidade Católica de Brasília (UCB) e do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

O questionário investigou onze dimensões da experiência juvenil. Além de religiosidade e participação eclesial, abordou características demográficas, educação, condições socioeconômicas, família, cultura, saúde integral, vulnerabilidades, projeto de vida e questões socioambientais.

A amplitude temática permite observar as condições concretas em que os participantes vivem sua fé. O relatório apresenta uma população que valoriza a espiritualidade e a comunidade, mas também enfrenta exigências acadêmicas, responsabilidades econômicas e dificuldades de bem-estar.

Alcance nacional exige atenção aos limites da amostra

A coleta foi realizada por questionário online, com participação voluntária e amostragem não probabilística. O relatório ressalta que os resultados não representam estatisticamente toda a juventude brasileira nem todos os jovens católicos do país. O número elevado de respostas amplia o material disponível para análise, mas não elimina possíveis efeitos de autoseleção. A pesquisa alcançou predominantemente pessoas com algum nível de inserção na vida eclesial católica e presença em ambientes digitais.

O acompanhamento da coleta identificou forte correspondência entre a distribuição territorial dos respondentes e a distribuição populacional utilizada como referência. O próprio documento esclarece, porém, que essa cobertura geográfica não constitui, isoladamente, comprovação de representatividade estatística.

Outro cuidado envolve as bases das perguntas. Embora o levantamento tenha reunido 11.498 participantes, diferentes questões apresentam números menores de respondentes, em razão de filtros e do percurso de preenchimento. Há também perguntas que permitiam escolher mais de uma alternativa, cujos percentuais expressam a distribuição das menções, e não a proporção de pessoas em determinada condição.

Grupo de Jovens da Paróquia São Judas Tadeu, da Arquidiocese de Brasília. Na imagem, o pároco ao centro junto dos jovens em experiência no lar de idosos/ foto: PASCOM Paróquia São Judas Tadeu.

Jovens adultos e moradores de áreas urbanas predominam

A faixa de 18 a 24 anos concentra 64,8% da amostra, seguida pelos participantes de 25 a 29 anos, com 32,5%. Os adolescentes de 12 a 17 anos correspondem a 2,7%. A média de idade é de 22 anos.

A distribuição territorial apresenta maior participação do Sudeste, com 36,4%, e do Nordeste, com 35,6%. As duas regiões reúnem 72% da amostra. O Sul responde por 11,8%, o Centro-Oeste por 9,7% e o Norte por 6,4%. Também predomina a residência em áreas urbanas: 86,3% dos participantes vivem nessas localidades, enquanto 13,7% moram em zonas rurais.

Quanto à escolaridade, 38,5% cursam o ensino superior, 25,4% estão no ensino médio e 18,6% já concluíram a graduação. Mulheres representam 55,6% da amostra, homens 44,0%, e 0,4% preferiram não responder à pergunta sobre sexo. Na autodeclaração racial, 51,2% são negros, considerando participantes pardos e pretos; 46,8% são brancos, 1,3% amarelos e 0,7% indígenas. Esse perfil delimita a leitura dos resultados. As experiências de jovens adultos, urbanos e com acesso à educação formal têm maior presença no levantamento. O relatório reconhece que a baixa participação de determinados grupos limita comparações mais aprofundadas.

Metade dos participantes concilia estudo e trabalho

A relação entre estudo e trabalho constitui um dos dados mais relevantes para compreender a disponibilidade dos jovens para atividades comunitárias. Na tabela que cruza essas condições, 50,4% dos participantes estudam e trabalham simultaneamente. Outros 25,7% estudam, mas não trabalham; 19,0% trabalham, mas não estudam; e 4,8%, correspondentes a 555 participantes, não estudam nem trabalham.

A dupla jornada reúne, portanto, metade da amostra. O relatório relaciona esse cenário à necessidade de propostas pastorais que considerem rotinas ocupadas e diferentes possibilidades de participação. As condições econômicas também aparecem na investigação. Entre os participantes, 45,8% declararam renda familiar mensal de até R$ 2.999, enquanto 31,4% informaram rendimentos entre R$ 3.000 e R$ 5.999. Somadas, essas faixas correspondem a 77,2% da amostra.

Na pergunta sobre recebimento de bolsas, auxílios ou benefícios governamentais, respondida por 5.226 pessoas, 40,3% afirmaram que suas famílias recebem algum benefício. O percentual se refere à base dessa questão, e não ao conjunto dos 11.498 participantes.

Os cruzamentos também registram diferenças raciais nas situações de trabalho. Entre os respondentes que declararam não trabalhar e estar à procura de emprego, 58,8% são negros. Esse dado descreve a composição do grupo que busca trabalho; não corresponde à taxa de desemprego de todos os participantes negros.

Grupo de Crisma da Paróquia São Luís Gonzaga, da Arquidiocese de São Paulo. Na imagem, catequista e jovens rezam durante o encontro/foto: Ronnaldh Oliveira.

Espiritualidade e comunidade são reconhecidas como apoio

Na seção sobre saúde e bem-estar, 74,4% dos respondentes concordam, parcial ou totalmente, com a afirmação de que a espiritualidade ajuda no cotidiano. A concordância total, isoladamente, alcança 64,0%. Outro indicador expressivo é o fortalecimento associado à pertença comunitária. Ao todo, 68,5% concordam que pertencer a uma pastoral ou movimento juvenil os fortalece, dos quais 55,8% concordam totalmente.

Os resultados mostram a importância atribuída pelos participantes à experiência espiritual e aos vínculos comunitários. Como se trata de uma investigação baseada em respostas ao questionário, esses indicadores não demonstram, por si, que a prática religiosa tenha causado melhora na saúde. A identificação católica é predominante entre os que responderam à pergunta sobre religiosidade. Dos 6.788 respondentes dessa questão, 98,3% se declararam católicos. O resultado confirma o perfil do público alcançado e precisa ser considerado na interpretação das demais respostas.

Bem-estar emocional e sono apresentam fragilidades

A valorização da espiritualidade convive, no conjunto da pesquisa, com indicadores de dificuldades emocionais. Apenas 44,3% concordam, parcial ou totalmente, que estão emocionalmente bem. Outros 30,8% discordam, enquanto 24,9% permanecem na posição intermediária. A afirmação sobre sentir insegurança na maior parte do tempo recebeu concordância de 36,7% dos respondentes. Já a percepção de sono reparador foi registrada por 42,2%, enquanto 32,1% discordam de que dormem bem e têm um descanso reparador.

Esses indicadores expressam percepções de bem-estar e não equivalem a diagnósticos clínicos de transtornos mentais ou do sono. Ao mesmo tempo, 64,3% concordam que têm esperança quanto ao futuro. O levantamento reúne, assim, sinais de vulnerabilidade e expectativas positivas. Os percentuais gerais, entretanto, não permitem estabelecer como essas experiências se combinam em cada participante.

As relações de amizade também aparecem como apoio. Na seção de bem-estar, 63,0% concordam que têm amigos que os apoiam e cuja presença consideram importante. Outros 23,3% discordam da afirmação, indicando que parte dos respondentes não reconhece essa rede de suporte.

Surdos e colaboradores do Instituto Nossa Senhora do Brasil, das irmãs Calvarianas. O Instituto se faz presente há mais de 50 anos na Arquidiocese de Brasília/ Foto: ASCOM INOSEB.

Família e vida digital estão entre as principais dificuldades mencionadas

Quando convidados a indicar até três das maiores dificuldades enfrentadas pelos jovens, os participantes deram maior destaque aos problemas familiares, com 17,2% das menções. Dependência digital aparece em seguida, com 16,0%, acompanhada de adoecimentos psíquicos, com 12,9%, e pressão acadêmica ou escolar, com 12,2%. Esses percentuais representam a distribuição das escolhas registradas. Não indicam que 16,0% dos participantes tenham diagnóstico de dependência digital nem que 12,9% apresentem um transtorno mental.

O ambiente digital também aparece como espaço de interesse religioso e de convivência. Religião e espiritualidade lideram as menções na pergunta sobre temas de maior interesse na internet, com 23,1%. Nas respostas abertas sobre pertencimento eclesial, alguns participantes citaram comunidades católicas online, fóruns de discussão e grupos de WhatsApp. Os registros mostram a existência dessas experiências, sem permitir estimar quantos jovens mantêm vínculos religiosos principalmente digitais.

Ausência de grupos adequados é principal motivo entre os que explicaram a não participação

Entre 538 respondentes que explicaram por que não participavam de grupos, pastorais ou movimentos juvenis católicos, 55,3% apontaram ausência de grupos ou inadequação à faixa etária e ao momento de vida. Outros 32,8% mencionaram incompatibilidades com aspectos organizacionais, espirituais ou doutrinários. A categoria que reúne falta de motivação, incentivo, acolhimento ou tempo recebeu 11,9% das respostas.

O resultado se refere a esse grupo específico e não pode ser utilizado como explicação geral para todos os afastamentos da Igreja. Ainda assim, oferece um elemento concreto para avaliar a adequação das propostas pastorais. Na síntese final, o relatório destaca a necessidade de diversificar os formatos de grupos para jovens maiores de 18 anos e de fortalecer percursos de acolhida e acompanhamento compatíveis com suas realidades.

Estudantes da Universidade de São Paulo em experiência de oficinas teatrais em Lorena-SP/Foto: Comunicação USP Campi Lorena-SP

Participação juvenil apresenta avanços e limites nas decisões

A pergunta sobre participação dos jovens na Igreja, respondida por 4.865 pessoas, apresenta diferentes percepções sobre os espaços disponíveis. A alternativa mais escolhida, com 26,5%, indica que há oportunidade para opinar e que, na maioria das vezes, as contribuições produzem mudanças. Outros 23,0% entendem que a Igreja oferece espaço, mas existe pouco interesse dos jovens em participar.

Também com 23,0%, aparece a percepção de que os jovens são mobilizados principalmente para executar tarefas, como montagem de ambientes, organização de cadeiras e barracas. Outros 16,3% reconhecem oportunidades para opinar, mas não percebem mudanças. O conjunto mostra que a participação não é experimentada de forma homogênea. O relatório identifica como desafio ampliar a corresponsabilidade e distinguir protagonismo juvenil de atuação restrita à organização das atividades.

Santidade, formação integral e saúde mental lideram temas de interesse

Na pergunta sobre temas capazes de despertar interesse no jovem católico, santidade e fé cristã receberam 16,7% das menções. Formação integral, envolvendo mente, coração, espírito e ação, aparece com 11,9%, seguida por saúde mental, com 10,3%.

Música, arte e cultura somam 7,0%, enquanto diálogo entre fé e razão recebe 6,8%, e ética cristã, 6,5%. Os participantes podiam escolher até três temas. Os percentuais, portanto, expressam o peso relativo das menções. A pergunta também aborda a percepção dos respondentes sobre o interesse do jovem católico, e não exclusivamente suas preferências individuais.

Para o relatório, a combinação entre aprofundamento espiritual, formação e saúde mental oferece subsídios para uma evangelização articulada às diferentes dimensões da vida.

Jovens inacianos realizam experiência de retiro. Na imagem, partilha em grupo/ Foto: Ronnaldh Oliveira

Documento 85 é desconhecido pela maioria dos respondentes

O estudo também investigou o conhecimento sobre o Documento 85 da CNBB. Entre 5.708 respondentes, 73,3% afirmaram não conhecê-lo, 21,9% disseram conhecê-lo parcialmente e 4,8% declararam conhecê-lo bem. O resultado evidencia um desafio de difusão da referência nacional para a evangelização juvenil. Não permite, porém, afirmar que suas orientações estejam ausentes de todas as práticas pastorais, já que propostas podem ser aplicadas sem conhecimento direto do documento.

Na pergunta sobre temas para sua atualização, destacaram-se santidade no mundo atual, com 17,8% das menções; Palavra de Deus e Eucaristia na vida e missão da Igreja com os jovens, com 16,5%; e espiritualidade cristã, com 10,9%. As alternativas foram construídas a partir de documentos, iniciativas e ênfases eclesiais. As escolhas precisam ser compreendidas dentro desse conjunto apresentado aos participantes.

Questões ambientais revelam distância entre percepção e informação

Na dimensão socioambiental, 71,5% dos respondentes afirmaram sentir os impactos das mudanças climáticas em suas vidas. Outros 21,7% disseram ainda não perceber esses efeitos, enquanto 6,8% declararam não acreditar que mudanças climáticas estejam ocorrendo. A busca constante por informações sobre questões socioambientais, entretanto, foi relatada por apenas 14,5%. Outros 40,3% procuram informações ocasionalmente, 31,3% raramente o fazem e 13,9% nunca buscam se informar.

O relatório identifica uma distância entre perceber os impactos e aprofundar o conhecimento sobre o tema. Quanto às práticas ambientais, 60,9% afirmaram realizar algumas ações positivas, mas reconheceram que precisam melhorar.

Resultados oferecem subsídios para o acompanhamento das juventudes

A síntese do estudo propõe compreender a evangelização juvenil como acompanhamento de trajetórias que articulam espiritualidade, família, amizade, educação, trabalho, saúde e projeto de vida. Os resultados apontam possibilidades concretas de revisão pastoral: adequar agendas às rotinas de estudo e trabalho, diversificar grupos, fortalecer a formação dos acompanhantes, qualificar a acolhida e ampliar a participação nas decisões.

A aplicação desses dados exige considerar as características de cada comunidade e complementar a escuta com públicos menos alcançados pelo questionário. O levantamento oferece uma base ampla para reflexão, cujo alcance depende de preservar os limites metodológicos e de transformar as demandas identificadas em processos construídos com os próprios jovens.

Acesse a pesquisa aqui.

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