O Papa Leão XIV defendeu, nesta sexta-feira, 2 de outubro, uma renovação da aliança entre a Igreja, os artistas e as instituições culturais diante dos desafios provocados pela inteligência artificial. Ao receber artistas e curadores no Vaticano, o Pontífice afirmou que se tornou urgente distinguir a criação artística humana dos conteúdos produzidos por máquinas.
“Hoje, eu também lhes digo: a Igreja precisa de vocês. Especialmente nesta era da inteligência artificial, em que se torna urgente distinguir a arte humana daquilo que é produzido pelas máquinas”, afirmou.
A audiência, realizada na Sala do Consistório, reuniu participantes do encontro “A arte da possibilidade: tecer juntos”, promovido pelo Dicastério para a Cultura e a Educação.
Leão XIV agradeceu a colaboração dos artistas e curadores com iniciativas da Santa Sé nos últimos anos, especialmente o Pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza e outros projetos de arte contemporânea.
Arte como lugar de escuta
Em seu discurso, o Papa recordou a visita de Francisco, em 2024, ao Pavilhão da Santa Sé instalado no Cárcere Feminino da Giudecca, em Veneza. Segundo Leão XIV, aquela experiência não buscava simplesmente levar arte a uma prisão, mas permitir que a realidade das pessoas privadas de liberdade também interpelasse a própria arte.
O Pontífice retomou ainda a imagem da arte como uma espécie de “antena”, capaz de captar questões profundas da existência e transformar inquietações, gritos e sussurros humanos em experiências que possam ser vistas, ouvidas e compartilhadas.
“Para a Igreja, a arte é um lugar fundamental de escuta, onde se pode aprender sobre as aspirações e as feridas da humanidade, sobre sua sede de beleza, justiça e paz, sobre sua busca por sentido”, afirmou.
Para Leão XIV, essa capacidade de questionar e aprofundar a experiência humana faz com que a arte não possa ser considerada um elemento acessório na relação da Igreja com a cultura.
Contra o ruído e a uniformização
Ao refletir sobre o atual ambiente tecnológico, o Papa comparou a experiência artística aos mecanismos de busca. Enquanto as ferramentas digitais são capazes de oferecer milhares de respostas rapidamente, observou, elas tendem a apresentar aquilo que já existe e, muitas vezes, aquilo que o próprio usuário espera encontrar.
A arte opera de maneira diferente, segundo Leão XIV, porque não se limita a oferecer respostas, mas provoca perguntas e convida a olhar mais profundamente para a realidade.
“Na era da tecnologia e do consumo, o grande perigo não é mais apenas a censura, mas a uniformização; não apenas o silêncio imposto, mas o ruído que torna impossível ouvir”, alertou.
Nesse contexto, o Papa destacou o potencial da criação artística para desacelerar o olhar e romper com a lógica do consumo imediato. Quando resiste à uniformização e faz as pessoas pararem diante daquilo que não pode ser rapidamente consumido, afirmou, a arte pode tornar-se uma forma de “regeneração cultural e espiritual”.
“Falta aos algoritmos a centelha do humano”
Leão XIV retomou ainda uma afirmação feita por São Paulo VI aos artistas, em 1964: “Precisamos de vocês”. Para o atual Pontífice, esse apelo ganha uma nova dimensão diante do desenvolvimento da inteligência artificial generativa.
Segundo o Papa, existe uma diferença que antecede a própria avaliação estética entre uma obra criada por uma pessoa e aquilo que uma máquina produz a partir de cálculos estatísticos e de grandes quantidades de imagens.
“Faltam aos algoritmos a centelha do humano”, afirmou.
A reflexão de Leão XIV não se concentrou apenas na capacidade técnica das ferramentas, mas naquilo que caracteriza a experiência humana presente na criação. Para ele, a cultura e a arte autênticas são capazes de conservar essa dimensão e contribuir para que ela não seja diluída em processos de automatização.
Uma aliança para proteger o humano
Diante desse cenário, o Papa afirmou que a Igreja deseja renovar sua relação com artistas e instituições culturais em torno de um objetivo comum: “uma aliança para proteger o ser humano”.
Leão XIV também retomou sua recente visita à sede da UNESCO, em Paris, quando afirmou que educação, ciência e cultura não podem ser promovidas sem considerar a vida das pessoas que são protagonistas desses processos.
Ao concluir o encontro, o Pontífice reafirmou que a Igreja deseja caminhar ao lado daqueles que trabalham com a arte e a cultura.
“Saibam que a Igreja olha para vocês com estima, gratidão e esperança, que precisa de vocês e que deseja caminhar ao lado de vocês”, disse Leão XIV.