Trocar de navegador, escolher um aplicativo de mensagens ou participar de uma rede social, alternativa pode parecer uma decisão sem grande importância. Mas, em uma internet dominada por poucas empresas, essas escolhas também dizem respeito à privacidade, à liberdade e ao controle sobre as informações que circulam no ambiente digital. É a partir dessa perspectiva que Rogério Bordini, doutor em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), discute formas de enfrentar a concentração de poder das chamadas big techs. Em artigo publicado pelo The Conversation Brasil, em 30 de outubro, e reproduzido pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), o pesquisador apresenta o conceito de resistência algorítmica e experiências que apontam para uma internet mais autônoma e participativa.
A reflexão parte de uma constatação: as plataformas digitais deixaram de ser apenas ferramentas de comunicação. Seus algoritmos influenciam o acesso à informação, os hábitos de consumo, a formação de opiniões e até a maneira como as pessoas participam do debate público. Para Bordini, essa influência exige respostas que ultrapassem a crítica às grandes empresas de tecnologia. É necessário conhecer alternativas e desenvolver práticas capazes de devolver aos usuários maior controle sobre sua experiência digital.
Como os algoritmos influenciam nossas decisões?
As redes sociais utilizam mecanismos de recomendação e recursos de design para orientar o comportamento dos usuários. A rolagem infinita, as notificações e a personalização dos conteúdos são exemplos de estratégias que estimulam a permanência nas plataformas. Uma dessas práticas é conhecida como digital nudging, conceito associado ao uso de elementos de interface para influenciar escolhas no ambiente digital.
Ao mesmo tempo, os algoritmos analisam informações sobre hábitos, interesses e interações para direcionar publicidade e recomendar conteúdos. O problema, segundo Bordini, está na combinação entre coleta massiva de dados, pouca transparência e concentração das decisões em empresas que controlam algumas das principais infraestruturas digitais do mundo. Essa estrutura também produz consequências para a vida democrática. O pesquisador chama atenção para a influência das plataformas na circulação de conteúdos políticos e para os riscos da desinformação, especialmente em períodos eleitorais. O debate, portanto, não envolve apenas o tempo gasto diante das telas. Diz respeito também a quem controla os mecanismos de circulação da informação e quais interesses orientam seu funcionamento.
Resistência algorítmica: o que significa esse conceito?
Diante desse cenário, pesquisadores têm investigado maneiras de reduzir a dependência dos sistemas algorítmicos. Uma dessas abordagens é a resistência algorítmica, conceito discutido por Emiliano Treré e Tiziano Bonini no livro Algorithms of Resistance. A expressão reúne práticas que procuram questionar, limitar ou transformar a influência das plataformas digitais sobre a sociedade.
Bordini recupera também a contribuição da socióloga Stefania Milan, que distingue duas formas de resistência: defensiva e produtiva. A resistência defensiva concentra-se na proteção dos usuários. Inclui o uso de ferramentas de privacidade, aplicativos criptografados, navegação anônima e a redução da exposição a serviços que realizam coleta excessiva de dados. Já a resistência produtiva busca transformar o próprio ambiente digital. Envolve iniciativas de educação tecnológica, criação de plataformas alternativas, mobilização social e participação nos debates sobre regulamentação e direitos digitais. As duas estratégias partem de uma compreensão comum: os usuários não precisam aceitar passivamente as regras estabelecidas pelas plataformas. A resistência pode começar com escolhas individuais, mas ganha força quando se transforma em ação coletiva.
Soberania digital começa pelo controle dos dados
A discussão também está relacionada ao conceito de soberania digital, que envolve a capacidade de países, instituições e cidadãos exercerem controle sobre tecnologias, informações e infraestruturas essenciais. No Brasil, o tema ganha relevância diante da dependência de serviços controlados por empresas estrangeiras. Bordini destaca especialmente o direito à autodeterminação informacional, princípio segundo o qual cada pessoa deve participar ativamente das decisões sobre o uso de seus dados. Esse fundamento está presente na Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), mas sua efetivação exige mais do que normas jurídicas.
É necessário que os usuários compreendam como suas informações são coletadas, armazenadas e utilizadas, além de terem condições reais de escolher serviços que respeitem sua privacidade. Para o pesquisador, a soberania digital também depende de educação tecnológica e do fortalecimento de alternativas às plataformas dominantes.
Fediverso: uma alternativa às grandes redes sociais
Entre as experiências apresentadas no artigo está o Fediverso, um ecossistema de redes sociais descentralizadas construídas com tecnologias abertas. Diferentemente das plataformas tradicionais, controladas por uma única empresa, o Fediverso reúne servidores independentes, administrados por comunidades, organizações e grupos de usuários. Serviços como Mastodon, Pixelfed e PeerTube fazem parte desse ambiente.
O Mastodon permite publicar mensagens e participar de conversas; o Pixelfed é voltado ao compartilhamento de fotografias; e o PeerTube oferece recursos para hospedagem e distribuição de vídeos. Essas plataformas podem utilizar o protocolo ActivityPub, que possibilita a comunicação entre diferentes serviços compatíveis. Na prática, uma pessoa pode participar de uma comunidade digital sem precisar estar vinculada à mesma plataforma utilizada por todos os seus contatos. Outra característica importante é a possibilidade de estabelecer regras próprias de convivência e moderação.
Em vez de concentrar essas decisões em uma empresa, cada servidor pode definir critérios de funcionamento de acordo com as necessidades de sua comunidade. O modelo também permite experiências com feeds cronológicos, ausência de publicidade comportamental e maior controle sobre a circulação dos conteúdos, conforme as características de cada serviço. Isso não significa que as plataformas descentralizadas estejam livres de desafios. A manutenção dos servidores, o financiamento e a moderação continuam exigindo recursos e responsabilidades. A diferença está na possibilidade de distribuir essas decisões entre diferentes comunidades.
Experiências brasileiras mostram outros caminhos
No Brasil, Bordini destaca a Organica.Social, instância criada em 2025 com participação de movimentos sociais. A iniciativa utiliza uma estrutura comunitária, na qual as regras de convivência e moderação são estabelecidas pelos próprios participantes. Nesse modelo, as decisões sobre os conteúdos publicados não ficam exclusivamente sob responsabilidade de uma empresa proprietária da plataforma. A experiência demonstra que a autonomia digital também pode ser construída em espaços menores, organizados a partir de interesses e valores compartilhados. Para o pesquisador, iniciativas desse tipo tornam mais concreta a discussão sobre soberania digital. Não se trata apenas de defender políticas nacionais de tecnologia, mas de experimentar outras formas de produzir, compartilhar e administrar informações.
O que cada pessoa pode fazer?
A resistência algorítmica não exige abandonar imediatamente todas as redes sociais ou serviços digitais utilizados no cotidiano. Bordini propõe começar por mudanças possíveis, acompanhadas de maior consciência sobre o funcionamento das tecnologias. Entre as práticas estão a adoção de navegadores com melhores recursos de privacidade, a utilização de aplicativos com criptografia, a revisão das permissões concedidas às plataformas e a experimentação de redes descentralizadas.
O pesquisador também destaca a importância de softwares abertos e auditáveis, que permitem maior transparência sobre seu funcionamento. Essas escolhas se relacionam a três objetivos: proteger os dados pessoais, questionar os mecanismos de manipulação informacional e recuperar a autonomia sobre aquilo que se acessa e consome na internet. A educação digital ocupa um lugar central nesse processo. Compreender como funcionam os algoritmos, verificar informações e reconhecer estratégias de direcionamento de conteúdo são habilidades importantes para uma participação mais consciente no ambiente digital.
Uma internet diferente depende de escolhas coletivas
A concentração do poder tecnológico não será superada apenas pela mudança de hábitos individuais. O próprio artigo reconhece que a dependência de infraestruturas estrangeiras foi construída ao longo de décadas e envolve interesses econômicos, políticos e sociais. Além disso, o crescimento da inteligência artificial e a expansão dos centros de dados acrescentam novos desafios, incluindo o consumo de energia e água e a concentração de recursos tecnológicos. Ainda assim, Bordini argumenta que a existência de plataformas alternativas demonstra que outros modelos de organização da internet são possíveis.
O fortalecimento dessas iniciativas depende da combinação entre escolhas pessoais, educação digital, desenvolvimento tecnológico e participação coletiva. A reflexão também amplia o significado da cidadania digital. Não basta utilizar as tecnologias de maneira responsável; é necessário compreender as estruturas que condicionam seu funcionamento e participar das decisões sobre o futuro desses ambientes. Nesse sentido, resistir ao poder das grandes plataformas não significa rejeitar a tecnologia, mas questionar a ideia de que existe apenas uma maneira de organizar a vida digital.
A internet pode ser construída a partir de outros princípios, com maior transparência, participação comunitária e respeito à autonomia dos usuários. Como observa Bordini, a transformação não acontecerá de maneira imediata. Entretanto, experiências descentralizadas e práticas conscientes mostram que a dependência das grandes empresas não precisa ser tratada como inevitável.A questão que permanece é quem deve definir as regras da nossa experiência digital: as empresas que controlam as plataformas ou as pessoas e comunidades que fazem da internet um espaço de convivência, informação e participação social?
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com base em artigo de Rogério Bordini publicado pelo The Conversation Brasil em 30 de outubro de 2026.
