A juventude continua encontrando nas ruas um espaço de participação política e reivindicação de direitos. Em diferentes países, estudantes e jovens trabalhadores têm se mobilizado diante das desigualdades sociais, das dificuldades econômicas e da insatisfação com os serviços públicos. Embora as realidades nacionais apresentem diferenças, essas manifestações revelam uma preocupação comum: a possibilidade de construir um futuro com mais oportunidades, justiça social e participação democrática.
Essa aproximação entre experiências de mobilização no Brasil e na França é discutida em artigo da estudante de Jornalismo Vitória Abranoski, publicado em 28 de outubro e reproduzido pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU) em 31 de outubro. O texto relaciona a participação de trabalhadores, estudantes e movimentos sociais no cenário político brasileiro às manifestações organizadas pela juventude francesa, que têm reunido reivindicações por melhorias na educação, na saúde pública, no acesso ao trabalho e nas condições de vida. Para a autora, a mobilização popular demonstra que os jovens permanecem como sujeitos ativos nos debates sobre os rumos da sociedade, contrariando a percepção de que as novas gerações estariam afastadas da política.
Educação e custo de vida mobilizam jovens franceses
Na França, parte das manifestações juvenis está relacionada à insatisfação com a qualidade dos serviços públicos e às dificuldades enfrentadas por estudantes e trabalhadores. Em entrevista a Vitória Abranoski, o ativista francês de esquerda Ilian Sagginho afirma que a precarização da educação foi um dos principais fatores de mobilização.
“O movimento começou devido ao sucateamento da educação no país. As escolas enfrentam cada vez menos professores, enquanto os estudantes lidam com uma sobrecarga de atividades”, relata.
Entre as críticas apresentadas pelos estudantes está o funcionamento do Parcoursup, plataforma utilizada no processo de ingresso no ensino superior francês. Segundo o ativista, parte da juventude considera o sistema injusto e questiona seus efeitos sobre as oportunidades educacionais. As reivindicações, entretanto, ultrapassaram o ambiente escolar. Com a ampliação dos protestos, outras pautas passaram a integrar as mobilizações, incluindo o aumento dos preços dos combustíveis, as dificuldades de acesso à saúde e o enfrentamento do racismo. Sagginho afirma que a perda do poder de compra tem contribuído para o crescimento da insatisfação social.
“Nossas famílias e nós temos cada vez menos dinheiro a cada ano, mesmo trabalhando mais”, declara.
A percepção relatada pelo ativista revela uma das preocupações presentes nas mobilizações: a dificuldade de transformar o esforço no trabalho em melhores condições de vida.
Redes sociais ampliam a organização dos protestos
A presença das plataformas digitais também ocupa um lugar importante na experiência dos movimentos juvenis. Segundo Sagginho, redes como TikTok e Twitter, atualmente denominado X, contribuíram para divulgar as reivindicações e aproximar participantes.
“Eles se desenvolveram principalmente por meio do TikTok e do Twitter, especialmente porque, no início, tratava-se de um movimento organizado pela juventude francesa”, explica.
A utilização dessas plataformas permite que informações sobre manifestações circulem rapidamente e alcancem pessoas que não participam diretamente de organizações políticas tradicionais. Os ambientes digitais também favorecem a circulação de imagens, relatos e denúncias relacionados aos protestos. Essa dinâmica evidencia uma característica das mobilizações contemporâneas: a articulação entre a presença física nas ruas e a comunicação digital. As redes sociais, contudo, não substituem a organização coletiva. Elas funcionam como instrumentos de mobilização e visibilidade para reivindicações que surgem de experiências concretas de desigualdade e insatisfação social.
Ativista denuncia repressão durante manifestações
Outro aspecto abordado na entrevista é a relação entre manifestantes e forças de segurança. Sagginho afirma que a atuação policial tem provocado tensões durante os protestos e denuncia episódios de violência contra participantes.
“A polícia e as autoridades francesas têm se mostrado cada vez mais agressivas com os manifestantes. Em contrapartida, os bombeiros demonstram apoio às nossas reivindicações e permanecem ao nosso lado durante os protestos”, relata.
De acordo com o ativista, confrontos com a polícia resultaram em ferimentos graves, incluindo casos que ele associa ao uso de granadas de dispersão. As declarações representam o relato do entrevistado sobre as manifestações e não são acompanhadas, no artigo, de um levantamento independente sobre a quantidade de vítimas ou as circunstâncias dos episódios mencionados. A questão da violência policial também se relaciona, segundo Sagginho, às denúncias de discriminação contra populações negras e árabes na França. Para ele, o enfrentamento do racismo e das desigualdades contribui para aproximar diferentes grupos sociais e gerações em torno de reivindicações comuns.
Juventudes brasileiras e francesas compartilham desafios
Ao relacionar as mobilizações francesas ao cenário brasileiro, Vitória Abranoski chama atenção para a capacidade de participação política das juventudes. No Brasil, a presença de estudantes, trabalhadores e organizações da sociedade civil em manifestações e debates públicos evidencia que as novas gerações continuam disputando os sentidos da democracia e das políticas sociais.
Na França, as reivindicações por educação, saúde, melhores condições econômicas e combate ao racismo também expressam a insatisfação de jovens diante de problemas que afetam suas perspectivas de futuro. As pautas e os contextos políticos não são idênticos. Ainda assim, a comparação permite identificar uma preocupação compartilhada com o acesso a direitos e com a possibilidade de participar das decisões que afetam a vida coletiva. Nesse processo, as redes sociais ampliam a circulação das experiências de mobilização entre diferentes países, permitindo que ativistas acompanhem reivindicações e estratégias desenvolvidas em outros contextos. Mais do que uma identificação geracional, essa aproximação revela a importância das condições concretas de vida na formação da consciência política dos jovens.
A juventude como protagonista das transformações sociais
A presença juvenil nas manifestações também convida a questionar interpretações que associam as novas gerações ao desinteresse pela política. As formas de participação mudam ao longo do tempo. A atuação em movimentos estudantis, organizações sociais, campanhas digitais e manifestações públicas demonstra que o engajamento político pode assumir diferentes linguagens e espaços. O artigo de Vitória Abranoski destaca justamente essa capacidade de articulação entre demandas cotidianas e reivindicações coletivas.
Quando jovens protestam contra a precarização da educação, o aumento do custo de vida ou a discriminação, colocam em discussão não apenas dificuldades individuais, mas as condições sociais que influenciam suas oportunidades. A mobilização também revela que a participação política não se limita aos processos eleitorais. Ela se expressa na organização comunitária, na defesa de direitos e na cobrança por respostas das instituições públicas. As experiências brasileiras e francesas, embora distintas, mostram que as ruas continuam sendo um espaço relevante de expressão democrática.
O protagonismo juvenil, nesse contexto, não se define apenas pela capacidade de reunir pessoas em manifestações, mas pela possibilidade de transformar preocupações compartilhadas em participação organizada e reivindicações concretas. Ao ocupar os espaços públicos e digitais, essas juventudes afirmam que o futuro não é apenas uma realidade que lhes será entregue. É também um campo de decisões e disputas do qual desejam participar.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com base em artigo de Vitória Abranoski, estudante de Jornalismo da Uninter, publicado em 28 de outubro de 2026.
