A participação dos jovens no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 revelou uma transformação que ultrapassa a disputa eleitoral. Manifestações organizadas a partir de universidades, redes de convivência e iniciativas espontâneas ganharam as ruas sem depender diretamente das estruturas partidárias. Para o sociólogo Rudá Ricci, o fenômeno desafia a própria maneira como a sociedade compreende os movimentos sociais.
Em artigo publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), em 4 de novembro, o diretor do Instituto Cultiva argumenta que as novas formas de mobilização possuem características diferentes daquelas que marcaram as organizações sociais do século passado. São manifestações que surgem rapidamente, respondem a acontecimentos específicos e podem alcançar grande repercussão sem necessariamente se transformar em movimentos permanentes. A análise levanta uma questão central: o que acontece quando a sociedade encontra novas maneiras de se organizar, mas os partidos e as instituições continuam operando segundo modelos de representação construídos em outro contexto histórico?
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Das universidades às ruas
Ricci identifica como um dos pontos de partida da mobilização juvenil uma manifestação de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizada em 5 de outubro, após a divulgação dos resultados do primeiro turno. Na ocasião, jovens saíram da Faculdade de Direito, no bairro do Ingá, em Niterói, em direção à reitoria, entoando a frase: “A juventude pode mudar o mundo”.
Segundo o sociólogo, aquela iniciativa não estava diretamente vinculada ao chamado Exército de Janones, articulação digital associada à campanha de Luiz Inácio Lula da Silva. Tratava-se de uma mobilização estudantil que ganhou dimensão política própria. Ao longo do segundo turno, outras iniciativas se multiplicaram, ultrapassando os limites da coordenação eleitoral. Entre as imagens destacadas por Ricci está a de jovens ajudando pessoas idosas a chegar aos locais de votação. Para o pesquisador, a força dessas manifestações esteve justamente na capacidade de produzir ações sem depender de uma direção centralizada. A juventude não apareceu apenas como público de uma campanha, mas como protagonista de iniciativas que escaparam ao planejamento das organizações políticas.
O que 2013 e 2026 têm em comum?
A comparação com as manifestações de junho de 2013 ocupa um lugar importante na análise de Ricci. Naquele período, protestos inicialmente relacionados ao transporte público ganharam dimensão nacional, reunindo reivindicações diversas e grupos com orientações políticas distintas. Para o sociólogo, tanto em 2013 quanto em 2026, a espontaneidade, a descentralização e a ausência de comando único dificultaram o controle das manifestações pelas instituições tradicionais. A diferença estaria na reação política a esses processos.
Ricci avalia que, em 2013, a direção do Partido dos Trabalhadores interpretou com desconfiança uma mobilização que não conseguia controlar, associando-a à oposição ao governo Dilma Rousseff. Já em 2026, a proximidade dos manifestantes com a campanha de Lula teria produzido uma postura mais receptiva. Essa interpretação é do autor e não significa que os dois momentos tenham apresentado as mesmas pautas ou consequências. O elemento comum está na emergência de iniciativas capazes de ultrapassar as organizações que tradicionalmente conduzem a participação política.
A comparação também expõe uma contradição: partidos podem valorizar a mobilização popular quando ela favorece seus objetivos, mas encontrar dificuldades para reconhecer sua autonomia quando as reivindicações escapam às estratégias institucionais.
Uma nova forma de ação coletiva?
A principal contribuição do artigo está na distinção entre movimentos sociais e mobilizações sociais. Ricci recupera a tradição dos estudos sociológicos sobre movimentos sociais, desenvolvida desde o século XIX, para lembrar que essas organizações costumam surgir de conflitos e desigualdades, articulando reivindicações em torno de direitos e transformações sociais. Historicamente, movimentos estudantis, sindicais e populares construíram identidades coletivas, lideranças, estruturas organizativas e estratégias de atuação prolongadas. As manifestações recentes, segundo o sociólogo, nem sempre seguem esse percurso.
“Os movimentos sociais que ainda existem no Brasil foram todos forjados no final do século passado. Agora, temos mobilizações provisórias que ninguém consegue garantir que continuarão na próxima semana ou se conseguirão se constituir em organizações”, escreve.
Essa diferença é decisiva. Um movimento social procura sustentar sua atuação ao longo do tempo. Uma mobilização pode reunir milhares de pessoas em torno de uma urgência e perder força quando o acontecimento que a motivou deixa de ocupar o centro do debate. Isso não torna a mobilização menos relevante. Sua capacidade de interferir nos acontecimentos pode ser expressiva, mesmo sem uma estrutura permanente. O problema surge quando se tenta compreender essas experiências utilizando exclusivamente categorias construídas para organizações estáveis.
Um fenômeno que ultrapassa o Brasil
Ricci situa as manifestações brasileiras em uma onda internacional de participação juvenil. O artigo menciona protestos em países como França, Espanha, Portugal, Itália, Albânia e Sérvia, além de mobilizações na América Latina e na Ásia. Embora os contextos e as reivindicações sejam diferentes, o sociólogo identifica a defesa de políticas públicas inclusivas como um elemento recorrente.
Ele também aproxima esse cenário do ciclo internacional de manifestações ocorrido entre 2011 e 2013. A comparação sugere que as transformações na ação coletiva não são exclusivamente brasileiras. Em diferentes sociedades, jovens encontram formas de participação que nem sempre passam por partidos, sindicatos ou organizações tradicionais.
A rapidez das mobilizações, entretanto, apresenta uma tensão: a capacidade de reunir pessoas em torno de uma causa não garante que essa energia produza estruturas capazes de sustentar reivindicações no longo prazo. É justamente nessa distância entre mobilização imediata e continuidade política que se encontra um dos desafios apontados pelo artigo.
O desafio dos partidos e da representação política
Para Ricci, as instituições tradicionais não conseguem acompanhar plenamente a velocidade e a provisoriedade dessas manifestações. Partidos políticos e organizações sociais foram construídos sobre mecanismos de representação, liderança e tomada de decisão que exigem algum grau de estabilidade. As novas mobilizações, por outro lado, podem surgir, ganhar repercussão e se reorganizar antes mesmo que essas instituições consigam estabelecer canais de diálogo.
A questão não é apenas tecnológica. Embora as plataformas digitais ampliem a circulação de informações e facilitem articulações rápidas, o fenômeno envolve uma mudança nas relações entre indivíduos, coletivos e estruturas de poder. As pessoas podem se mobilizar em torno de uma causa sem necessariamente aderir a uma organização ou compartilhar integralmente seu programa político. Essa dinâmica amplia as possibilidades de participação, mas também dificulta a construção de compromissos duradouros. Para os partidos, o desafio é reconhecer a autonomia dessas manifestações sem reduzi-las a instrumentos eleitorais. Para os próprios participantes, está em encontrar formas de transformar reivindicações imediatas em mudanças concretas.
O que o protagonismo juvenil revela sobre a democracia?
A reflexão de Ricci permite questionar a ideia de que a juventude estaria afastada da política. O que pode estar em transformação não é necessariamente o interesse dos jovens pelas questões públicas, mas a maneira como escolhem participar delas. A mobilização estudantil, as articulações digitais e a presença nas ruas mostram que a participação política não se limita à filiação partidária ou à atuação em organizações permanentes.
Isso não significa que as instituições tenham perdido sua importância. A transformação de reivindicações em políticas públicas continua dependendo de processos de negociação, representação e decisão. O desafio está na relação entre essas duas dimensões: a energia das mobilizações espontâneas e a continuidade necessária para produzir mudanças institucionais. Ao final do artigo, Ricci reconhece que ainda é cedo para compreender plenamente o significado do que ocorreu no segundo turno das eleições. Sua análise não apresenta uma resposta definitiva, mas identifica um fenômeno que merece atenção.
A novidade não está simplesmente no fato de os jovens voltarem às ruas. Está na maneira como conseguem produzir ação política fora das estruturas tradicionais e na dificuldade dessas mesmas estruturas de compreender o que está acontecendo. O futuro dessas mobilizações permanece incerto. Algumas poderão desaparecer tão rapidamente quanto surgiram; outras poderão construir vínculos, organizações e projetos mais duradouros. Enquanto isso, a questão permanece aberta: se as formas de participação social estão mudando, como a democracia poderá criar espaços capazes de acolher essa transformação sem limitar sua autonomia?
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com base no artigo “Outra vez, os jovens”, de Rudá Ricci, publicado em 4 de novembro de 2026.

