Artigos Juventudes e Vocações

A urgência de uma Igreja que caminhe e acompanhe as juventudes

Em tempos de relações fragmentadas, experiências religiosas passageiras e profundas buscas por sentido, o acompanhamento espiritual precisa deixar de ser uma atividade complementar para tornar-se uma dimensão constitutiva da pastoral juvenil. É preciso cada vez mais recuperar recuperar uma pedagogia da presença, da escuta e da liberdade, capaz de formar pessoas, amadurecer vocações e converter comunidades

Há uma pergunta que deveria inquietar nossas comunidades e, particularmente, aqueles que assumem a missão de evangelizar as juventudes: conhecemos verdadeiramente os jovens que caminham conosco? Sabemos o que os mobiliza, quais perguntas carregam, que experiências atravessam suas histórias e como compreendem a presença de Deus em suas vidas? Ou nos habituamos a reconhecê-los apenas pela frequência nos encontros, pela participação nas celebrações e pela disponibilidade para assumir tarefas pastorais? A pergunta não pretende desqualificar o trabalho de tantas pessoas que dedicam suas vidas à evangelização. Pelo contrário, nasce do reconhecimento de que a generosidade pastoral, embora indispensável, não dispensa uma reflexão permanente sobre a qualidade dos processos que oferecemos.

Durante muito tempo, aprendemos a avaliar a vitalidade de nossas iniciativas pelo número de participantes, pela quantidade de atividades realizadas e pela capacidade de mobilização. Esses indicadores revelam aspectos importantes da vida comunitária, mas não são suficientes para compreender a fecundidade de uma experiência evangelizadora. Uma comunidade pode reunir centenas de jovens, organizar grandes eventos e manter uma programação intensa sem conseguir acompanhar, de maneira pessoal e continuada, as histórias daqueles que a procuram. A questão central não é apenas quantos jovens conseguimos reunir, mas o que acontece com suas vidas depois que os encontros terminam.

Essa reflexão nos coloca diante de uma distinção necessária: proporcionar experiências religiosas não significa, automaticamente, favorecer processos de amadurecimento da fé. Uma experiência pode emocionar, despertar entusiasmo e produzir memórias significativas. Entretanto, quando não encontra continuidade na vida comunitária, na formação da consciência e no discernimento pessoal, corre o risco de permanecer como um acontecimento isolado. É nesse horizonte que o acompanhamento espiritual recupera sua relevância. Não como uma estratégia para assegurar a permanência dos jovens nas estruturas eclesiais, mas como expressão de uma Igreja que reconhece a singularidade de cada pessoa e assume a responsabilidade de caminhar com ela.

A presença que educa e a comunidade que acompanha

O acompanhamento não se restringia aos momentos formais de orientação espiritual. O ambiente educativo-comunitário constitui, ele próprio, uma possibilidade de crescimento humano e espiritual. Essa pedagogia compreende que a confiança não nasce de uma autoridade simplesmente instituída, mas de uma presença capaz de estabelecer vínculos. Antes de orientar, é necessário conhecer. Antes de propor, é preciso escutar. Antes de esperar respostas, torna-se indispensável reconhecer a história e as condições concretas de quem está diante de nós.

Essa intuição possui consequências importantes para a pastoral contemporânea. Não basta disponibilizar pessoas para atendimentos individuais se o cotidiano da comunidade permanece marcado pela impessoalidade, pela rigidez das relações ou pela ausência de espaços de participação. O acompanhamento começa muito antes de uma conversa espiritual formal. Começa quando um adolescente percebe que sua ausência foi sentida, quando encontra alguém disposto a escutá-lo sem pressa, quando suas perguntas não são recebidas como ameaça e quando descobre que pode pertencer à comunidade mesmo enquanto atravessa dúvidas e dificuldades.

Uma comunidade que acompanha não transforma a presença do jovem em obrigação, mas faz de sua própria presença um testemunho de cuidado. Por isso, o acompanhamento não pode ser compreendido exclusivamente como responsabilidade de um sacerdote, religioso ou assessor. Embora existam funções específicas e competências necessárias, toda a comunidade é chamada a desenvolver uma cultura de acompanhamento. Isso se expressa no modo como acolhe, educa, celebra, estabelece limites, partilha responsabilidades e reconhece o protagonismo juvenil. A comunidade deixa, assim, de ser apenas o lugar onde acontecem atividades e se torna um ambiente no qual a fé encontra condições para crescer.

Escutar as juventudes sem antecipar suas respostas

A realidade juvenil contemporânea apresenta desafios que não podem ser interpretados apenas a partir da perda de referências religiosas ou do afastamento das instituições. Vivemos transformações profundas nas maneiras de construir identidades, estabelecer vínculos, experimentar afetos e compreender o futuro. As juventudes transitam entre múltiplos espaços de pertencimento. Encontram possibilidades de expressão e participação antes inimagináveis, mas também convivem com inseguranças, pressões por desempenho, exposição permanente e dificuldades para elaborar experiências interiores. Nesse contexto, é insuficiente afirmar que os jovens perderam o interesse pela espiritualidade. Precisamos compreender como suas buscas se manifestam, quais linguagens utilizam e que experiências reconhecem como significativas.

Muitos não chegam às comunidades solicitando acompanhamento espiritual. Aproximam-se porque desejam encontrar amigos, participar de uma atividade, superar uma dificuldade ou simplesmente experimentar um ambiente onde sejam acolhidos. Isso não significa ausência de inquietações espirituais. Frequentemente, as perguntas mais profundas ainda não encontraram palavras para serem expressas. A missão de quem acompanha consiste também em ajudar a pessoa a reconhecer essas perguntas, sem impor interpretações antecipadas.

Existe uma diferença fundamental entre escutar um jovem e escutá-lo apenas para descobrir como convencê-lo de nossas respostas. A primeira atitude reconhece sua dignidade e liberdade; a segunda corre o risco de instrumentalizar a relação pastoral. O acompanhamento exige abertura para encontrar histórias que desafiam nossas categorias, experiências que não compreendemos imediatamente e escolhas que não correspondem às nossas expectativas. Exige, sobretudo, reconhecer que Deus não começa a agir na vida de uma pessoa somente quando ela ingressa em determinada atividade religiosa. O jovem não é um território vazio à espera de evangelização. É uma história na qual Deus já se faz presente e cuja ação precisamos aprender a discernir. Essa convicção modifica significativamente nossa maneira de educar na fé. O anúncio cristão permanece essencial, mas precisa encontrar uma escuta capaz de reconhecer o terreno humano onde a Palavra será acolhida.

Acompanhar não é decidir pelo outro

Uma das maiores delicadezas do acompanhamento espiritual está na relação entre orientação e liberdade. A pessoa que acompanha não é proprietária da consciência de quem procura ajuda. Não lhe compete substituir decisões, determinar caminhos vocacionais ou produzir respostas previamente desejadas pela instituição. Sua responsabilidade consiste em favorecer condições para que o acompanhado reconheça seus movimentos interiores, desenvolva critérios de discernimento e amadureça sua capacidade de responder livremente a Deus.

A tradição de São Francisco de Sales, recorda a importância da amizade espiritual, da gradualidade e da educação dos afetos. O crescimento não acontece pela imposição de comportamentos exteriores, mas por um caminho paciente de transformação interior, no qual a liberdade e o amor amadurecem conjuntamente. Isso significa compreender que nem toda dúvida representa resistência à fé, nem toda crise corresponde a um fracasso formativo. O amadurecimento humano e espiritual inclui conflitos, revisões, descobertas e períodos de aparente silêncio. Uma pastoral excessivamente preocupada em produzir respostas rápidas pode acabar impedindo que os jovens formulem suas próprias perguntas.

O Evangelho dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) ilumina essa pedagogia. Jesus aproxima-se de dois homens desorientados, caminha com eles e pergunta sobre os acontecimentos que os entristecem. Mesmo conhecendo a realidade, permite que expressem sua interpretação dos fatos. Somente depois, ilumina a experiência com as Escrituras e se deixa reconhecer no partir do pão. Há uma sequência evidentemente educativa nessa passagem: aproximação, escuta, interpretação, encontro e missão. Os discípulos não permanecem dependentes daquele que os acompanhou. Levantam-se e retornam à comunidade, agora capazes de testemunhar o que viveram. Esse é um critério decisivo para avaliar a qualidade do acompanhamento: uma relação espiritualmente fecunda não produz dependência, mas liberdade, responsabilidade e capacidade de caminhar.

Não existe amadurecimento espiritual separado da vida

Outro desafio consiste em superar a fragmentação entre formação religiosa e desenvolvimento humano. Por vezes, nossas propostas pastorais oferecem conteúdos doutrinais consistentes, mas encontram dificuldades para acolher questões relacionadas à afetividade, à sexualidade, às relações familiares, à saúde emocional, ao trabalho e aos projetos de futuro. Entretanto, essas dimensões não são assuntos periféricos à experiência espiritual. Constituem a realidade concreta na qual cada pessoa aprende a amar, escolher, estabelecer vínculos e assumir responsabilidades.

Não podemos falar de vocação sem considerar as condições humanas que tornam possível uma decisão livre. Não podemos educar para a fraternidade ignorando as dificuldades relacionais. Tampouco podemos anunciar a confiança em Deus sem reconhecer as experiências de sofrimento, insegurança e abandono que atravessam tantas histórias juvenis. O acompanhamento espiritual precisa integrar essas dimensões, sem pretender substituir o trabalho de profissionais especializados. A maturidade pastoral também se manifesta na capacidade de reconhecer limites, encaminhar situações que exigem cuidados específicos e construir ambientes seguros, especialmente para crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis. A formação dos acompanhantes, portanto, não pode limitar-se ao conhecimento de métodos de oração ou à transmissão de conteúdos religiosos. Precisa contemplar o desenvolvimento humano, a escuta qualificada, a ética das relações, a proteção de vulneráveis e a compreensão das culturas juvenis.

Há ainda uma exigência frequentemente negligenciada: ninguém pode oferecer, de maneira consistente, uma experiência de acompanhamento que nunca procurou cultivar na própria vida. Quem acompanha também precisa ser acompanhado. Precisa reconhecer suas fragilidades, elaborar suas expectativas e discernir as motivações que sustentam seu serviço. Sem esse cuidado, a orientação espiritual pode transformar-se, mesmo involuntariamente, em projeção de desejos pessoais ou em exercício de controle.

Da pastoral de atividades à pastoral de itinerários

O reconhecimento da importância do acompanhamento exige consequências organizativas. Não basta afirmar sua centralidade nos documentos pastorais se a dinâmica das comunidades continua estruturada exclusivamente em torno de eventos, calendários e demandas operacionais. Precisamos construir itinerários nos quais o acolhimento inicial encontre continuidade na convivência comunitária, na formação, na oração, no acompanhamento pessoal e na experiência missionária. Isso pressupõe decisões concretas: preparar acompanhantes, estabelecer tempos regulares de escuta, garantir continuidade mesmo diante da mudança de lideranças e integrar as dimensões humana, espiritual, comunitária e apostólica.

Também exige rever a maneira como distribuímos responsabilidades. Frequentemente, jovens que demonstram disponibilidade são rapidamente incorporados às equipes de serviço. Aprendem a organizar encontros, conduzir celebrações e administrar atividades, mas nem sempre encontram alguém interessado em acompanhar seu próprio amadurecimento. A capacidade de assumir tarefas não pode ser confundida com maturidade espiritual. Uma comunidade pode formar excelentes organizadores de eventos sem necessariamente formar pessoas capazes de discernir sua vocação, cuidar de seus vínculos e compreender as implicações sociais da fé que professam. Por isso, o acompanhamento precisa ultrapassar a preparação para funções e alcançar a formação integral da pessoa. O jovem não pode ser valorizado somente pelo que oferece à instituição, mas reconhecido por aquilo que é e pelo caminho singular que está construindo.

Essa preocupação também alcança os ambientes digitais. As redes sociais são espaços reais de convivência, expressão e busca de sentido. A presença pastoral nesses ambientes precisa superar a simples distribuição de conteúdos religiosos e favorecer relações responsáveis, respeitando a privacidade, os limites da comunicação digital e os protocolos de proteção. Acompanhar no digital não significa estar disponível permanentemente, mas reconhecer que a vida dos jovens também acontece nesses espaços e que a missão evangelizadora precisa compreendê-los.

Uma Igreja que acompanha também se deixa converter

Há uma dimensão do acompanhamento que merece atenção especial: sua capacidade de transformar não apenas os jovens, mas as próprias comunidades. Escutar verdadeiramente as juventudes significa permitir que suas experiências interpelem nossas práticas, linguagens e prioridades. Uma Igreja que acompanha não pode considerar os jovens apenas destinatários de suas iniciativas. Precisa reconhecê-los como sujeitos eclesiais, capazes de contribuir para o discernimento comunitário e para a renovação da missão.

Nesse sentido, o acompanhamento encontra uma fecunda afinidade com a sinodalidade. Caminhar juntos não consiste em reunir pessoas ao redor de decisões previamente estabelecidas, mas em cultivar relações nas quais a escuta, a participação e a corresponsabilidade se tornem experiências concretas. Isso não elimina a responsabilidade educativa dos adultos, nem dispensa a clareza do anúncio cristão. Ao contrário, exige maior maturidade para exercer a autoridade como serviço e compreender que a formação da consciência não acontece pela substituição da liberdade.

O Papa Francisco insistiu, na exortação Christus vivit, na necessidade de uma pastoral juvenil capaz de acolher, escutar e acompanhar, reconhecendo os jovens como protagonistas. Essa perspectiva continua a desafiar comunidades que desejam anunciar o Evangelho sem perder a capacidade de dialogar com a realidade. Acompanhamento e missão, portanto, não podem ser separados. Quem encontra espaço para amadurecer sua fé é também chamado a reconhecer as necessidades do mundo e a responder a elas. O discernimento cristão não termina na descoberta de uma satisfação interior; conduz à responsabilidade pelo outro, ao compromisso com a justiça, ao cuidado da Casa Comum e à construção de relações mais fraternas.

A comunidade acompanha para que o jovem possa crescer, discernir, partir em missão e encontrar novamente nela um lugar de acolhida e partilha. A fecundidade desse processo não pode ser medida apenas pela permanência em determinado grupo ou pela escolha de uma vocação específica. Manifesta-se também na qualidade das relações que o jovem estabelece, na liberdade de suas decisões, na sensibilidade diante do sofrimento humano e na capacidade de transformar a fé em atitudes concretas. No fundo, o acompanhamento espiritual nos convida a recuperar uma convicção simples, mas exigente: ninguém amadurece sozinho, e ninguém pode ser reduzido ao ritmo, às expectativas ou aos projetos de outra pessoa.

A Igreja que deseja acompanhar as juventudes precisa aprender a permanecer sem aprisionar, orientar sem substituir, propor sem impor e acolher sem renunciar à verdade do Evangelho. Isso demanda tempo, formação, disponibilidade e coragem institucional para rever prioridades. Demanda reconhecer que a qualidade de uma presença pode ser pastoralmente mais significativa do que a multiplicação de iniciativas. Acompanhar é caminhar suficientemente perto para que ninguém se sinta abandonado e com liberdade suficiente para que cada pessoa descubra, diante de Deus, o caminho que é chamada a percorrer.

Quando essa compreensão orientar nossas escolhas, deixaremos de perguntar apenas quantos jovens participaram de nossas atividades. Passaremos a nos perguntar quantas histórias foram significativamente acolhidas, quantas consciências puderam amadurecer, quantas vocações encontraram condições para florescer e quantas vidas descobriram na comunidade cristã um lugar onde é possível crescer em sabedoria, liberdade e graça. Porque a missão de uma pastoral que acompanha não é manter os jovens indefinidamente ao seu redor, mas ajudá-los a reconhecer a presença de Deus na própria história e encontrar coragem para fazer da vida uma resposta de amor. E uma Igreja que aprende a acompanhar dessa maneira não apenas oferece caminhos às juventudes. Ela própria se renova ao caminhar com elas.

Sobre o autor

Ronnaldh Oliveira

Jornalista, especialista em Juventudes

Graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), Ator (DRT 55603/SP) Jornalista e Repórter Cinematográfico (Estácio de Sá – MTB 90923/SP), Pós graduado em Influência Digital: Conteúdo e Estratégia pela PUC-RS, Pós graduado em Gestão de Comunicação e Mídias Digitais (Anhembi Morumbi). Especialista em Juventudes pela Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre. Atua há mais de dez anos na evangelização e acompanhamento de jovens. Está membro da equipe nacional do projeto Missionários Digitais da CNBB e assessora dioceses, congregações e instituições em temas ligados à missão, cultura digital, acompanhamento espiritual de jovens, acompanhamento vocacional na internet e Inteligência Artificial.. Está coordenador da SIGNIS Brasil Jovem no triênio (2026-2028), como também editor-chefe da Agência de Notícias SIGNIS para o mesmo triênio.

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