Os jovens norte-americanos estariam redescobrindo a religião? A pergunta ganhou força nos últimos meses diante de pesquisas que apontam um possível crescimento do interesse religioso entre integrantes da Geração Z. Um novo levantamento do Pew Research Center, divulgado em 28 de outubro, acrescenta dados importantes a esse debate, mas também demonstra que a relação das novas gerações com a fé é mais complexa do que sugerem as interpretações sobre um eventual renascimento religioso.
Segundo a pesquisa, 41% dos jovens adultos nascidos entre 2004 e 2008, atualmente com idades entre 18 e 22 anos, afirmam participar de celebrações religiosas pelo menos uma vez por mês. O percentual supera a média de 33% registrada entre os adultos norte-americanos e fica abaixo apenas do índice de 43% observado entre os nascidos antes de 1950. O resultado chama atenção porque contrasta com a tendência histórica de diminuição da participação religiosa nos Estados Unidos, especialmente entre as gerações mais jovens. Entretanto, os próprios pesquisadores alertam que esse dado não é suficiente para afirmar que existe um movimento consistente de retorno dos jovens à religião. A pesquisa também identificou diferenças expressivas entre faixas etárias próximas, além de indicadores que continuam apontando para níveis relativamente baixos de oração diária e identificação religiosa entre os mais jovens.
Jovens de 18 a 22 anos apresentam frequência religiosa acima da média nacional
O dado mais expressivo do levantamento está na participação mensal em celebrações religiosas. Entre os adultos de 18 a 22 anos, 41% declararam frequentar igrejas ou outros espaços de culto ao menos uma vez por mês. O percentual é oito pontos superior à média nacional e supera o observado em praticamente todas as demais faixas etárias. Chip Rotolo, pesquisador sênior da equipe de religião e vida pública do Pew Research Center, classificou o resultado como surpreendentemente elevado. A diferença, entretanto, torna-se ainda mais significativa quando comparada com a faixa etária imediatamente seguinte. Entre os jovens nascidos de 2000 a 2003, com idades entre 23 e 26 anos, apenas 27% afirmaram frequentar celebrações religiosas mensalmente. Esse grupo também apresentou os menores índices de religiosidade em outros indicadores avaliados pelo instituto.
Somente 26% disseram rezar diariamente, 27% consideraram a religião muito importante em suas vidas e 50% afirmaram possuir identificação com alguma tradição religiosa. A distância entre os dois grupos demonstra que a Geração Z não apresenta um comportamento religioso homogêneo.
Participar de celebrações não significa necessariamente maior religiosidade
Embora os jovens de 18 a 22 anos apresentem uma frequência religiosa relativamente elevada, outros resultados da pesquisa apontam para uma realidade diferente. Entre eles, 34% afirmaram rezar diariamente, enquanto 59% disseram se identificar com alguma religião. Na população adulta norte-americana, esses percentuais chegam, respectivamente, a 46% e aproximadamente 69%. A comparação indica que a maior participação em celebrações religiosas não corresponde necessariamente a níveis igualmente elevados de oração pessoal ou pertencimento institucional.
Para os pesquisadores, essa diferença exige atenção às múltiplas maneiras pelas quais a religiosidade se manifesta. Frequentar uma celebração, identificar-se com uma tradição religiosa e atribuir importância pessoal à fé são dimensões relacionadas, mas não equivalentes. Além disso, a participação religiosa pode estar associada a diferentes circunstâncias familiares, sociais e culturais. Rotolo observa que alguns dos jovens adultos mais novos ainda vivem com seus pais ou mantêm hábitos adquiridos durante a infância e a adolescência. Essas condições podem contribuir para explicar por que apresentam índices de participação religiosa superiores aos de pessoas apenas alguns anos mais velhas.
Margem de erro recomenda cautela diante dos resultados
O Pew Research Center também ressalta uma limitação metodológica importante. A análise específica dos jovens nascidos entre 2004 e 2008 contou com 443 participantes, resultando em uma margem de erro aproximada de seis pontos percentuais. Isso significa que os percentuais apresentados para essa faixa etária devem ser interpretados considerando a incerteza estatística da amostra.
O relatório reuniu informações de duas pesquisas: a Pesquisa Nacional de Referência de Opinião Pública de 2026, com 5.511 adultos, e a Pesquisa Transversal de Engajamento de 2025, com 5.393 participantes. De maneira geral, os resultados apontam para uma estabilização dos principais indicadores de religiosidade nos Estados Unidos, depois de décadas de declínio.
Essa tendência mais ampla torna ainda mais difícil interpretar o comportamento dos jovens de 18 a 22 anos como evidência de uma transformação religiosa generalizada. Para Rotolo, seria necessário compreender por que uma eventual mudança cultural estaria concentrada em uma faixa etária tão específica, sem apresentar o mesmo comportamento entre jovens pouco mais velhos. O pesquisador considera que essa diferença deverá continuar sendo investigada.
Outras pesquisas também identificaram sinais de mudança
O levantamento do Pew Research Center se soma a outros estudos recentes que despertaram interesse sobre a relação da Geração Z com a religião. Em setembro de 2025, uma pesquisa do Barna Group identificou que, entre pessoas que frequentam igrejas, integrantes da Geração Z participavam de celebrações religiosas, em média, 1,9 vez por mês. O índice superava ligeiramente o dos millennials, cuja frequência média era de 1,8 vez por mês.
Esse resultado, porém, refere-se especificamente a pessoas que já frequentavam igrejas, não permitindo concluir que a totalidade da Geração Z tenha aumentado sua participação religiosa. Outro levantamento, divulgado pelo Gallup em 2026, apontou crescimento na importância atribuída à religião entre homens de 18 a 29 anos. Nesse grupo, 42% afirmaram considerar a religião muito importante, contra 28% registrados entre 2022 e 2023. Os resultados também chamaram atenção para possíveis mudanças nas diferenças de religiosidade entre homens e mulheres jovens.
Em pesquisa divulgada no mesmo período, o Public Religion Research Institute identificou que 43% das mulheres adultas com menos de 30 anos não possuíam identificação religiosa, percentual superior aos 35% registrados entre homens da mesma faixa etária. Em conjunto, esses estudos sugerem transformações que merecem acompanhamento, mas ainda não permitem estabelecer uma tendência uniforme para toda a juventude norte-americana.
Homens jovens apresentam maior frequência religiosa em alguns indicadores
O novo relatório do Pew Research Center também identificou diferenças entre homens e mulheres na faixa etária de 18 a 22 anos. Entre os homens nascidos de 2004 a 2008, 47% afirmaram participar de celebrações religiosas pelo menos mensalmente. Entre as mulheres da mesma faixa etária, o percentual foi de 35%. Para Rotolo, trata-se de um resultado relevante, pois historicamente as mulheres norte-americanas apresentavam níveis de religiosidade superiores aos dos homens em diferentes indicadores.
“Esta é a primeira vez que vemos jovens do sexo masculino parecerem um pouco mais religiosos do que jovens do sexo feminino em alguns aspectos”, afirmou o pesquisador.
Entretanto, o levantamento também indica que a participação religiosa relativamente elevada entre os adultos mais jovens não está restrita aos homens. O comportamento aparece entre participantes de ambos os sexos e de diferentes identificações partidárias. Por isso, os pesquisadores consideram inadequado atribuir o fenômeno exclusivamente a um determinado grupo social ou político.
“É uma história muito complexa que não pode ser reduzida a um único fator preponderante”, explicou Rotolo.
Diferença histórica de religiosidade entre homens e mulheres diminuiu
Ao considerar a população adulta norte-americana em seu conjunto, o Pew Research Center identificou uma redução na diferença entre homens e mulheres quanto à identificação religiosa. Atualmente, aproximadamente 70% de ambos os grupos afirmam pertencer a alguma religião. Em 2007, esse percentual era de 86% entre as mulheres e 79% entre os homens.
A aproximação dos índices, entretanto, não ocorreu principalmente por um aumento da religiosidade masculina. Segundo o instituto, ela está relacionada à diminuição mais acentuada da identificação religiosa entre as mulheres ao longo dos últimos anos. Em outros indicadores, como a frequência da oração e a importância atribuída à religião, as mulheres ainda apresentam índices superiores aos dos homens. Os dados demonstram que as mudanças na experiência religiosa envolvem processos diferentes e não podem ser compreendidas apenas a partir de comparações isoladas.
Ainda é cedo para falar em renascimento religioso da Geração Z
Apesar dos resultados que apontam maior participação em celebrações entre os adultos mais jovens, o Pew Research Center considera prematuro afirmar que os Estados Unidos estejam vivendo um renascimento religioso liderado pela Geração Z. O instituto destaca que mudanças consistentes no comportamento religioso costumam ser identificadas por meio de séries históricas que abrangem décadas. Por isso, os dados atuais precisam ser acompanhados ao longo do tempo para determinar se representam uma tendência duradoura ou uma particularidade de determinado grupo etário.
“Definitivamente não há indícios de que os jovens adultos de hoje sejam muito mais religiosos, ou mesmo mais religiosos, do que os jovens da mesma idade de uma década ou mais atrás”, afirmou Rotolo.
A observação é importante porque diferencia duas questões: a comparação entre jovens e adultos de diferentes idades no presente e a comparação entre gerações quando estavam na mesma etapa da vida. Um grupo de jovens pode apresentar índices superiores aos de pessoas um pouco mais velhas sem que isso represente, necessariamente, uma recuperação histórica da religiosidade.
O que os dados revelam sobre a relação das juventudes com a fé?
Os resultados apresentados pelo Pew Research Center evidenciam a necessidade de compreender a religiosidade juvenil a partir de diferentes dimensões. A frequência a celebrações, a oração pessoal, a identificação religiosa e a importância atribuída à fé não evoluem necessariamente na mesma direção. Também é preciso considerar as diferenças existentes dentro de uma mesma geração, especialmente quando os jovens atravessam etapas distintas da vida, como a saída da casa dos pais, o ingresso no ensino superior e a construção de maior autonomia pessoal.
Para instituições religiosas e comunidades que trabalham com juventudes, os resultados oferecem elementos relevantes para reflexão, embora não permitam conclusões definitivas sobre um retorno generalizado à religião. Os dados sugerem a importância de observar não apenas quantos jovens participam de atividades religiosas, mas também como desenvolvem sua experiência de fé, constroem vínculos comunitários e atribuem significado à religião em suas vidas. Outra questão que permanece aberta é a continuidade dessa participação ao longo do amadurecimento pessoal. O contraste entre os jovens de 18 a 22 anos e aqueles de 23 a 26 anos reforça a necessidade de investigar os fatores que influenciam a permanência ou o afastamento das comunidades religiosas.
Por enquanto, a principal conclusão do estudo é que a experiência religiosa da Geração Z não pode ser resumida à ideia de abandono da fé, tampouco à afirmação de um renascimento religioso já consolidado.ntre sinais de participação, mudanças de comportamento e indicadores de secularização, a pesquisa revela uma juventude diversa, cuja relação com a religião continua em transformação.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com base em reportagem de Kathryn Post, publicada pelo National Catholic Reporter em 28 de outubro de 2026, sobre levantamento do Pew Research Center.
