Audiência Geral

Leão XIV pede uma política que enfrente desigualdades e promova a paz

Na audiência geral desta quarta-feira (4), Papa retoma os ensinamentos do Concílio Vaticano II para defender a dignidade do trabalho, uma economia a serviço das pessoas e uma política comprometida com o bem comum

Da redação com Vatican News

A política precisa ir além da administração de interesses e assumir a responsabilidade de enfrentar as injustiças, cuidar das feridas sociais e construir caminhos de esperança. Foi essa a reflexão apresentada pelo Papa Leão XIV durante a audiência geral desta quarta-feira, 4 de novembro, na Praça São Pedro, no Vaticano.

Dando continuidade ao ciclo de catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II, o Pontífice abordou os capítulos III e IV da segunda parte da constituição pastoral Gaudium et spes, dedicados à vida econômica, social e política. Ao recuperar os ensinamentos conciliares, destacou que o desenvolvimento econômico e o exercício da autoridade pública devem estar orientados pela dignidade humana, pela justiça e pela promoção da paz. A reflexão também chamou atenção para a permanência de desigualdades sociais, condições de trabalho degradantes e conflitos que comprometem a vida de milhões de pessoas. Segundo Leão XIV, o progresso técnico, por si só, não é suficiente para superar esses problemas. São necessárias transformações nas estruturas econômicas e sociais, acompanhadas de mudanças na mentalidade e nos hábitos das pessoas.

Desenvolvimento econômico não pode ignorar a dignidade humana

Ao comentar a Gaudium et spes, Leão XIV recordou que a dimensão social não é um elemento secundário da existência humana, mas parte constitutiva da vida das pessoas e de suas relações. Por isso, as decisões econômicas não podem ser avaliadas exclusivamente a partir de indicadores de crescimento, produtividade ou acumulação de riqueza. É necessário considerar seus efeitos sobre as condições de vida, as oportunidades e os direitos das populações.

O Papa alertou que um desenvolvimento marcado por desigualdades, discriminações e desrespeito à criação compromete não apenas a justiça social, mas também as possibilidades de construção da paz. Nesse contexto, retomou o conceito de desenvolvimento integral, aprofundado por São Paulo VI na encíclica Populorum progressio, publicada em 1967. A perspectiva apresentada pelo documento reconhece que o verdadeiro desenvolvimento deve alcançar todas as dimensões da pessoa humana e beneficiar a sociedade em seu conjunto. Leão XIV também destacou a atualidade do apelo conciliar à superação das discriminações que atingem grupos socialmente vulneráveis, incluindo migrantes. A preocupação expressa pelo Pontífice reforça a compreensão de que uma economia orientada pelo bem comum precisa reconhecer as pessoas como sujeitos de direitos, e não apenas como agentes de produção ou consumo.

O trabalho deve ocupar o centro da economia

Um dos pontos centrais da catequese foi a dignidade do trabalho humano. Para Leão XIV, o trabalho não pode ser reduzido a uma atividade destinada à geração de riqueza. Ele constitui uma dimensão fundamental da realização pessoal, da vida familiar e da participação na sociedade.

“O coração da economia é o trabalho. Através dele, o homem desenvolve-se como pessoa, satisfaz as necessidades da família, expressa o seu talento, participa na vida social e constrói um mundo melhor, colaborando na obra criadora de Deus”, afirmou.

Ao situar o trabalho no centro da economia, o Papa recuperou um princípio fundamental da Doutrina Social da Igreja: a atividade econômica deve estar a serviço da pessoa humana, e não o contrário. Essa compreensão exige atenção às condições concretas nas quais os trabalhadores exercem suas atividades. O Pontífice condenou o desemprego, a exploração e as situações laborais que colocam em risco a saúde e a vida das pessoas. Também ressaltou a importância da participação dos trabalhadores nas decisões relacionadas às suas atividades, reconhecendo o diálogo como instrumento fundamental para a construção de relações mais justas. Na resolução de conflitos, Leão XIV destacou a necessidade de privilegiar caminhos de entendimento e ações não violentas.

A riqueza deve contribuir para o bem de todos

A reflexão sobre a economia também recuperou o princípio da destinação universal dos bens, presente na tradição da Doutrina Social da Igreja. Esse ensinamento reconhece que os recursos da criação devem beneficiar toda a humanidade, de modo que sua utilização não pode desconsiderar as necessidades fundamentais das pessoas. Para Leão XIV, as decisões econômicas e financeiras precisam contribuir para garantir condições dignas de vida, especialmente às populações que enfrentam situações de pobreza e exclusão.A responsabilidade também se estende às futuras gerações.

Nesse sentido, o desenvolvimento econômico precisa considerar os impactos sociais e ambientais das escolhas realizadas no presente, evitando que a busca por benefícios imediatos comprometa as condições de vida daqueles que ainda virão. A perspectiva apresentada pelo Papa aproxima a justiça social do cuidado com a criação, reconhecendo que as desigualdades e a degradação ambiental estão entre os desafios que exigem respostas coletivas.

A política existe para servir ao bem comum

Na segunda parte da catequese, Leão XIV voltou sua atenção para o papel da comunidade política na organização da sociedade e na defesa dos direitos humanos. O Pontífice recordou que a autoridade pública deve exercer suas responsabilidades considerando o bem comum, e não apenas os interesses de determinados indivíduos ou grupos. A política, nessa perspectiva, não se limita à disputa pelo poder. Sua finalidade envolve a criação de condições que permitam às pessoas e às comunidades desenvolverem suas potencialidades e viverem com dignidade.

Ao recuperar a Gaudium et spes, Leão XIV também reafirmou a autonomia e a independência da Igreja e da comunidade política em seus respectivos campos de atuação. Essa distinção, entretanto, não impede a colaboração entre ambas quando o objetivo é promover a dignidade humana e responder às necessidades da sociedade. A cooperação, segundo a perspectiva conciliar retomada pelo Papa, deve respeitar as responsabilidades próprias de cada instituição e estar orientada pelo serviço às pessoas.

Cuidar das feridas dos povos é um caminho para a paz

A relação entre política e paz ocupou um lugar importante na conclusão da audiência. Leão XIV destacou que uma sociedade pacífica não se constrói apenas pela ausência de conflitos armados, mas também por meio do enfrentamento das injustiças e das condições que produzem sofrimento e exclusão. Ao abordar essa responsabilidade, recordou a encíclica Fratelli tutti, publicada pelo Papa Francisco em 2020.

“A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal”, citou.

A afirmação expressa uma crítica à incapacidade de resolver conflitos por meio do diálogo e da construção de soluções que preservem a vida humana. Em contraposição à lógica da violência, Leão XIV apresentou a política como um espaço de responsabilidade diante do sofrimento dos povos. Para o Pontífice, uma atuação política capaz de reconhecer as feridas provocadas pelas injustiças e trabalhar para superá-las pode oferecer esperança ao futuro da humanidade. Essa compreensão amplia o sentido da atividade política, associando-a não apenas à administração pública, mas também à promoção da justiça, à defesa dos direitos e à construção de relações pacíficas.

Papa incentiva jovens a assumir responsabilidades sociais e políticas

Ao concluir a catequese, Leão XIV dirigiu uma palavra de encorajamento aos jovens, convidando-os a conhecer o testemunho de homens e mulheres que contribuíram para a transformação da sociedade por meio de sua atuação econômica e política. O convite reforça a importância da participação das novas gerações nos espaços de decisão e na construção de respostas aos desafios contemporâneos. O Papa também renovou seu apelo às comunidades cristãs para que fortaleçam a formação na Doutrina Social da Igreja.

Essa formação permite compreender a relação entre a fé e as responsabilidades concretas da vida em sociedade, incluindo o trabalho, a economia, os direitos humanos, a participação política e a promoção da paz. Ao retomar os ensinamentos do Concílio Vaticano II, Leão XIV recordou que a experiência cristã não pode permanecer indiferente às condições de vida das pessoas. A mensagem apresentada na audiência aponta para uma compreensão da política como serviço, da economia como instrumento de promoção humana e do trabalho como expressão da dignidade de cada pessoa.

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