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Reconfigurando a rota da vida

O filho respondeu: “não quero”; mas depois mudou de opinião e foi.

Mt 21,29

Somos pessoas em processo de construção; nunca estamos prontos. Também no seguimento de Jesus há um percurso a ser feito, com altos e baixos, fidelidades e infidelidades, mentiras e verdades… Todos somos habitados por um “espírito de busca”: de sentido, de verdade, de bem, de justiça… Queremos sempre acertar em nossos compromissos, em nosso projeto de vida, em nossa vivência do Evangelho. Buscamos, porque estamos inquietos e desejamos saborear uma paz interior, uma certa qualidade de vida, uma coerência no nosso modo de proceder. No entanto, também somos seres limitados, inconstantes e frágeis. Há uma distância entre aquilo que buscamos e o que de fato vivemos. Nem sempre acertamos na rota do seguimento de Jesus. Muitas vezes seguimos rotas que não levam a lugar nenhum ou, pior ainda, a lugares perigosos: lugares egóicos, autocentrados, carregados de vaidade…

No evangelho deste domingo, Jesus continua fazendo advertência à sua comunidade de seguidores e seguidoras. É muito perigoso achar que já estamos prontos, que somos “perfeitos”, que não precisamos amadurecer mais na vivência do Evangelho. É importante não só ativar os recursos e as reservas interiores de dons, mas também des-velar (tirar o véu) as fragilidades, as incoerências, os fracassos…, e reconfigurar a rota da vida, inspirada na Vida de Jesus Cristo. Somos seguidores(as) de uma Pessoa, e não de uma doutrina, de uma religião. A pura teoria não serve para nada, só a vida salva. Tudo o que dizemos ou proclamamos são palavras vazias se não são acompanhadas por uma atitude vital que, inevitavelmente, se manifestará nas obras. “Mesmo que não queirais crer em mim, crede nas minhas obras” (Jo 10,38).

Para ilustrar a realidade de nossa vida cristã, Jesus narra uma parábola que é das mais claras e simples. Um pai se aproxima de seus dois filhos para pedir-lhes que fossem trabalhar na vinha. O primeiro responde com uma negativa rotunda: “Não quero”. Em seguida, pensa melhor e vai trabalhar. O segundo reage com uma docilidade ostentosa: “Sim, vou”. No entanto, tudo fica em palavras, pois não vai trabalhar na vinha.

Cada dia nos encontramos com homens e mulheres cujas vidas parecem insignificantes, limitadas, frágeis… No entanto, quando convivemos com eles e elas, nos damos conta que são almas generosas, corações abertos, desejos vivos, esperanças que os fracassos não conseguiram murchar. Muitos proclamam com boca cheia que são cristãos, que cumprem alguns ritos e penitências, mas estão carregados de ódio, de intolerância, de preconceito; também são muitos aqueles que, sem serem cristãos de “carteirinha”, vivem o evangelho com muito mais coerência. O farisaísmo se torna atitude corrente entre nós, e damos por satisfeito o fato de falar do evangelho ou ouvir falar dele para tranquilizar nossa consciência.

Nossas vidas estão marcadas por muitos “sins” e “nãos”. A vida se define entre o “sim” e o “não”; mas não com o “sim” da palavra, mas com o “sim” da vida.

Somos muitos que dizemos a Deus “sim”, mas nossas vidas continuam sendo um “não”; somos muitos que dizemos a Deus “não”, mas logo nossas vidas são um silencioso e profundo “sim”. Por onde anda o “sim” decidido no cotidiano de nossa vida? Em qual dos filhos da parábola nos vemos representados? Somos homens e mulheres só de palavras? Praticamos aquilo que prometemos? Permanecemos só nas “boas intenções” ou passamos aos atos? É Deus o norte e o guia de nossa existência?

Demos graças a Deus porque Ele continua nos chamando a trabalhar em sua vinha. O importante é sermos conscientes de que, certos caminhos que elegemos nos afastam d’Ele, de seu amor, de sua presença, de sua vinha e do caminho que nos conduz à vida, à felicidade, à graça.

Não nos conformemos com a mediocridade em nossa vida cristã. Não podemos dizer “sim” ao Senhor e logo andarmos por outros atalhos totalmente diferentes ao Evangelho.

Se na primeira vez não fomos capazes de dizer “sim” ao chamado de Deus, Ele aceita sempre nossa retificação. Quase sempre acertamos às custas de muitas retificações.

Poucos são capazes de descobrir a meta e o sentido de suas vidas logo de cara. Mas não devem se preocupar com as falhas e os fracassos. O mais frustrante é ser incapaz de reconfigurar a rota da vida.

De fato, nem os maiores fracassos e erros são definitivos. Podemos, em qualquer momento, reconfigurar a trajetória equivocada da vida. Os erros cometidos podem nos ajudar a encontrar o caminho verdadeiro. Somos limitados e temos de aceitar esta condição porque faz parte de nossa natureza humana. Não podemos pretender, nem para nós e nem para os outros, a “perfeição” (pura ilusão mental). Quando exigimos a uma pessoa que seja mais-que-perfeita, estamos exigindo que ela deixe de ser humana.

À luz do Evangelho podemos reler, ressignificar e reinterpretar nossos fracassos, erros e desvios de rota.

Quem se identifica com “ideais” muito elevados, quem se exalta a si mesmo na busca da “perfeição”, mais cedo ou mais tarde terá de confrontar-se com suas “sombras”, será forçado a tomar consciência de sua condição humana e terrena, de seu “húmus”.

Quem “desce” até sua própria realidade, até os abismos do seu interior, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está “subindo” para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro.

Essa é a razão pela qual toda a vida e mensagem de Jesus se condensam na vivência do amor. O que define a pessoa de fé não é que diga “Senhor, Senhor”, mas vive a prática compassiva do “vá e faça o mesmo”.

Sem dúvida alguma, Jesus sempre se revela como uma presença surpreendente, pois nos move a todos a vermos a realidade a partir de uma perspectiva diferente da que é habitual.

Ele é Aquele que vê mais além da realidade: descobre vida onde os outros só veem morte; desvela possibilidades onde os outros se deparam com o impossível; descobre sementes de futuro escondidas onde ninguém vê mais saída; vê santos onde todos só veem pecadores… Jesus é Aquele que vê bondade presente no fundo do coração, inclusive daqueles que são condenados como “publicanos e prostitutas”; sabe ler nos gestos mais simples a grandeza de um coração capaz de amar, de mudar, de ser melhor.

Eles e elas, homens e mulheres, expulsos, marginalizados, escórias da terra…, são os portadores do Reino de Deus, acima dos sábios fariseus, dos altos sacerdotes, dos representantes da religião centrada no ritualismo, na doutrina, no legalismo… O evangelho não diz que eles nos “precederão” (no futuro), mas que nos precedem já neste mundo, como Jesus que precede os seus no caminho de Jerusalém.

Reflexão do Padre Adroaldo Palácio, SJ

Sobre o autor

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

Jesuíta

Padre Adroaldo Palaoro é um sacerdote católico brasileiro da Companhia de Jesus (Jesuítas – SJ), amplamente conhecido por seu ministério itinerante voltado para a espiritualidade inaciana, retiros espirituais e reflexões bíblicas cotidianas. Atua em casas de retiro, com destaque para o Mosteiro de Itaici em Indaiatuba (SP), orientando e capacitando pessoas por meio dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. É autor de diversos artigos de espiritualidade publicados por arquidioceses e portais católicos, além de coordenar reflexões e podcasts voltados para o evangelho dominical (como o projeto Rezando o Evangelho).

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