A identidade e a missão dos grupos católicos LGBT+, os desafios do acolhimento nas comunidades eclesiais e a defesa dos direitos humanos estiveram em debate neste sábado (31), durante o segundo dia do V Encontro Nacional da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+. A programação começou com um balanço da caminhada dos grupos no Brasil e uma mesa de análise da realidade socioeclesial, que reuniu representantes da Igreja e do movimento LGBT+.
Participaram da mesa Alessandra Miranda, assessora da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); Ruth Venceremos, produtora cultural, educadora, ativista e política; e Andrea Moller, coordenadora da equipe de assessoria da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+.
Em sua exposição, Alessandra Miranda destacou que a sinodalidade precisa ultrapassar os espaços de escuta e produzir mudanças concretas na vida da Igreja. “Escutar é fundamental, mas escutar não basta. Precisamos perguntar o que faremos com aquilo que escutamos”, afirmou. Segundo a assessora, uma comunidade sinodal não é aquela que elimina as divergências, mas a que aprende a lidar com elas sem silenciar as pessoas. Para Alessandra, isso exige disposição para caminhar também com quem apresenta experiências capazes de questionar certezas e práticas já estabelecidas.
“Uma Igreja, uma rede sinodal, não é uma Igreja ou uma rede sem conflitos, divergências ou tensões. É uma Igreja que aprende a lidar com essas diferenças sem recorrer ao silenciamento”, ressaltou. A assessora também defendeu que ninguém deveria precisar esconder sua identidade para participar da caminhada eclesial.

A relação entre diversidade, direitos e participação social foi aprofundada por Ruth Venceremos. A partir de experiências pessoais de racismo e LGBTfobia, a ativista abordou a trajetória de organização do movimento LGBT+ no Brasil e destacou que a luta por reconhecimento também envolve o acesso à educação, à saúde, ao trabalho e à proteção social. Ruth recordou a mobilização dos movimentos durante a epidemia de HIV/Aids, a formação de organizações nacionais e a importância da articulação coletiva para a conquista e a defesa de direitos. Também manifestou preocupação com a utilização de discursos religiosos para justificar práticas discriminatórias e restringir direitos.
Durante o debate, um participante relatou a experiência de uma escola do interior de Pernambuco que elaborou, com estudantes, uma cartilha de enfrentamento à homofobia e enfrentou reações negativas após a divulgação do material. Ao comentar o caso, Ruth destacou a responsabilidade da educação na promoção do respeito às diferenças. “O papel principal [da educação] é abrir horizonte, não reproduzir preconceito”, afirmou. A ativista também ressaltou que o compromisso com a dignidade humana exige organização, formação e presença nos espaços de participação social, inclusive para estabelecer diálogo com pessoas que apresentam visões diferentes.

Acolhimento e identidade dos grupos
A reflexão sobre a própria atuação da Rede Nacional foi conduzida por Andrea Moller, que questionou os participantes sobre a coerência entre a Igreja que desejam construir e as práticas de acolhimento desenvolvidas pelos grupos. Baseada na reflexão do teólogo James Alison sobre a “dádiva das margens”, Andrea apresentou a experiência de marginalização como uma realidade a partir da qual também podem surgir contribuições para a renovação da vida eclesial.
A assessora destacou a relevância dos grupos como espaços seguros para a vivência da fé, especialmente para pessoas que enfrentaram situações de rejeição ou afastamento de suas comunidades religiosas. Segundo ela, o conhecimento da existência desses espaços pode representar uma oportunidade de reconstruir vínculos com a Igreja. Andrea, no entanto, alertou para o risco de os grupos se limitarem ao acolhimento interno, sem ampliar sua presença e atuação nas comunidades e na sociedade. Também chamou a atenção para a necessidade de fortalecer a participação de mulheres e pessoas trans e de reconhecer possíveis práticas de exclusão dentro da própria Rede.
“Será que representamos a Igreja que gostaríamos de encontrar?”, questionou.
Para a coordenadora, a missão dos grupos exige clareza sobre sua identidade, qualificação do acolhimento e disposição para atuar para além dos espaços já constituídos. “Nós não precisamos de permissão para existir e nem chancela de ninguém para viver a nossa fé”, afirmou.
Discernimento a partir das experiências
No período da tarde, os participantes deram continuidade às reflexões com a etapa dedicada ao tema “Discernir os sinais dos tempos para construir uma Igreja verdadeiramente sinodal”. Divididos em grupos, partilharam experiências e aprofundaram as questões apresentadas durante a manhã, considerando as diferentes realidades dos núcleos e coletivos que integram a Rede. A dinâmica teve como foco a escuta e a interseccionalidade, articulando aspectos relacionados a raça, gênero e etarismo.
As atividades seguem a metodologia do encontro, organizada em três verbos: escutar, discernir e caminhar, motivados no processo do Sínodo sobre a Sinodalidade. O V Encontro Nacional reúne mais de 60 participantes, representantes de 22 dos 29 grupos que integram a Rede, provenientes de 11 estados e do Distrito Federal. Com o tema “Uma Igreja para todos, todos e todos: diversidades, missão e sinodalidade”, a programação prossegue até segunda-feira, 2 de novembro, quando também está prevista a eleição da nova diretoria da Rede Nacional.
