Kerygma

Novo documento do Vaticano aborda transmissão da fé às novas gerações

Novo documento do Dicastério para a Doutrina da Fé defende a centralidade do primeiro anúncio de Jesus Cristo, a evangelização dos adultos e a superação de uma pastoral concentrada apenas na catequese de crianças e adolescentes. Texto também destaca o acompanhamento comunitário, a cultura digital e a necessidade de novas linguagens para anunciar o Evangelho.

Da redação com Vatican News

Transmissão da fé cristã às novas gerações /Foto: Canva

A transmissão da fé cristã já não acontece de maneira espontânea entre as gerações, mesmo em países de longa tradição católica. Diante das transformações culturais, da secularização e das novas formas de relacionamento, a Igreja precisa renovar seus caminhos de evangelização, colocando novamente no centro o anúncio do amor de Deus e o encontro pessoal com Jesus Cristo. Essa é a principal orientação do documento Vinde a Mim: Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época, divulgado nesta quinta-feira, 22 de outubro, pelo Dicastério para a Doutrina da Fé.

O texto reconhece que, em algumas regiões do mundo, a transmissão da fé está praticamente interrompida. A constatação exige uma revisão das práticas pastorais, especialmente daquelas que pressupõem que crianças e adolescentes chegarão à catequese com uma experiência cristã já cultivada no ambiente familiar. Entre as orientações apresentadas está a necessidade de ampliar a evangelização dos adultos, fortalecer as comunidades como espaços de acolhimento e acompanhamento e recuperar a centralidade do kerygma, palavra utilizada pela tradição cristã para designar o primeiro anúncio do Evangelho.

A referência fundamental é a mensagem retomada pelo Papa Francisco na exortação apostólica Evangelii gaudium: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar” (EG 164).

Um documento para repensar os caminhos da evangelização

Organizado em oito capítulos, além da introdução e da conclusão, o documento reúne reflexões teológicas e pastorais fundamentadas no Concílio Vaticano II e no magistério recente da Igreja, especialmente dos papas Francisco e Leão XIV. A publicação foi aprovada pelo Papa Leão XIV em 21 de agosto de 2026 e é assinada pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e por dom Armando Matteo, secretário da Seção Doutrinária do organismo vaticano.

Sua elaboração contou com contribuições de diferentes Conferências Episcopais, além de testemunhos de pessoas que descobriram ou redescobriram a fé cristã. O Vaticano esclarece que o texto possui o caráter de Considerações, e não de uma nota doutrinária. Dessa maneira, apresenta reflexões e propostas pastorais sem pretender encerrar o debate sobre a transmissão da fé. Seu objetivo é indicar caminhos concretos para anunciar o Evangelho diante das transformações que caracterizam a sociedade contemporânea.

A fé não se transmite apenas por conteúdos religiosos

Uma das afirmações centrais do documento é que a transmissão da fé não pode ser reduzida ao ensino de conteúdos doutrinários ou à comunicação de informações religiosas. Embora o conhecimento da doutrina seja importante, a experiência cristã exige uma inserção progressiva na vida da comunidade, na oração, na celebração e no testemunho do Evangelho.

O documento recorda que a fé é transmitida, antes de tudo, como uma forma de vida eclesial, na qual a pessoa é introduzida gradualmente. Essa perspectiva recoloca a experiência do encontro com Cristo no centro dos processos de evangelização.

O primeiro anúncio não deve ser compreendido apenas como uma etapa inicial, superada após o ingresso na catequese. Ele constitui o fundamento permanente da vida cristã e precisa iluminar os diferentes momentos da formação e do acompanhamento pastoral. A proposta é que as pessoas possam reconhecer o amor e a misericórdia de Deus como uma realidade dirigida concretamente a elas, e não apenas como uma verdade apresentada de maneira abstrata.

Evangelização dos adultos deve se tornar prioridade pastoral

O documento dedica atenção especial à crise da transmissão da fé no ambiente familiar. Durante muito tempo, em sociedades de tradição cristã, a experiência religiosa era transmitida de maneira relativamente contínua entre pais, filhos e demais integrantes da família. O texto reconhece, entretanto, que essa dinâmica foi interrompida em muitas regiões do mundo.

A família permanece como o primeiro e mais importante espaço de transmissão da fé, mas já não é possível pressupor que todos os estudantes ou participantes da catequese tenham recebido uma formação religiosa em casa. O Vaticano observa que, mesmo entre pessoas batizadas, existem situações de afastamento da vida comunitária, ausência de identificação com a Igreja e indiferença em relação à experiência cristã.

Essa realidade exige uma mudança na organização pastoral.

“A transmissão da fé exige hoje, particularmente, a evangelização dos adultos e a superação de uma ação pastoral concentrada exclusivamente na catequese de crianças e adolescentes”, afirma o documento.

A orientação representa um convite para que paróquias e comunidades ampliem suas iniciativas de formação e evangelização, envolvendo também pais, responsáveis e outros adultos. Nesse contexto, a catequese das novas gerações não pode permanecer isolada da experiência de fé de suas famílias e da vida da comunidade cristã.

Uma mudança de época que transforma a relação com a fé

O documento situa a crise da transmissão religiosa em um contexto mais amplo de transformações sociais e culturais. A secularização, a valorização crescente da autonomia individual e as novas formas de compreender a existência modificaram a maneira como muitas pessoas se relacionam com a religião. Segundo o Dicastério, a cultura contemporânea tende a relegar a fé ao âmbito privado e individual, reduzindo sua presença na vida coletiva. Essa mudança também atinge os processos tradicionais de socialização religiosa.

O documento observa que muitos jovens, mesmo depois de frequentarem atividades paroquiais durante a infância e a adolescência, chegam à vida adulta sem manter uma relação significativa com a comunidade cristã. A situação demonstra que a participação em atividades religiosas não garante, por si só, a continuidade da experiência de fé. Por isso, a Igreja é convidada a reconsiderar não apenas os conteúdos de seus processos formativos, mas também a qualidade dos vínculos estabelecidos com as pessoas e as oportunidades concretas de participação comunitária.

Cultura digital apresenta desafios que ultrapassam a tecnologia

Entre as transformações contemporâneas, o documento destaca a expansão das tecnologias digitais e o desenvolvimento da inteligência artificial. O ambiente digital interfere não apenas na circulação de informações, mas também na maneira como as pessoas estabelecem relações, constroem identidades e compreendem a realidade. Ao recuperar uma reflexão de Leão XIV apresentada na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026, o texto afirma que “o desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico”. A questão central, portanto, não está apenas no funcionamento das ferramentas digitais, mas nas transformações que elas provocam na experiência humana.

Para a evangelização, essa realidade exige atenção às novas linguagens, aos modos de interação e às experiências culturais que atravessam a vida das diferentes gerações. A presença da Igreja nesses ambientes precisa considerar as mudanças na maneira como as pessoas aprendem, se comunicam e constroem relações de pertencimento.

O acompanhamento é fundamental para a perseverança na fé

O Dicastério também chama atenção para uma realidade observada em regiões fortemente secularizadas: o crescimento de conversões e retornos à Igreja nem sempre é acompanhado pela permanência dos novos fiéis na vida comunitária. Segundo o documento, algumas pessoas que recebem o Batismo ou retomam a prática religiosa acabam retornando, pouco tempo depois, a uma situação de indiferença.

A constatação reforça a necessidade de comunidades preparadas para acolher e acompanhar aqueles que iniciam ou retomam sua caminhada cristã. A transmissão da fé, nessa perspectiva, não termina com a celebração de um sacramento ou a conclusão de uma etapa catequética. Ela exige continuidade, relações de confiança e oportunidades para aprofundar a experiência espiritual.

O documento propõe, assim, uma renovação da catequese que recupere a força do primeiro anúncio e utilize uma linguagem capaz de alcançar a experiência concreta das pessoas. O anúncio cristão deve apresentar o amor de Deus de maneira pessoal, permitindo que cada pessoa reconheça que essa mensagem também se dirige à sua própria história.

Palavra de Deus, liturgia e testemunho sustentam a vida comunitária

Ao apresentar caminhos para a renovação da evangelização, o documento destaca três dimensões fundamentais da experiência cristã: a escuta da Palavra de Deus, a participação na liturgia e o testemunho dos fiéis. Uma das recomendações é que as comunidades promovam grupos permanentes de escuta, meditação, partilha e oração com a Palavra de Deus.

O texto sugere que essas iniciativas tenham horários definidos e façam parte da vida ordinária das comunidades, em relação com a celebração da Eucaristia dominical. A liturgia também é apresentada como um espaço privilegiado de encontro com Cristo, no qual o mistério da fé é celebrado e comunicado sacramentalmente. Outra dimensão indispensável é o testemunho cristão. O documento destaca três expressões desse testemunho: a santidade, a proximidade com as pessoas e a opção preferencial pelos pobres.

Esses elementos recordam que a credibilidade do anúncio depende também da maneira como a comunidade vive aquilo que proclama. A reflexão inclui ainda a contribuição da arte, da beleza e especialmente da música como caminhos capazes de favorecer a experiência religiosa e aproximar as pessoas da mensagem cristã.

Fé e cultura precisam dialogar

O documento reconhece que a transmissão da fé acontece sempre em contextos culturais específicos. Por isso, a inculturação é apresentada como uma etapa necessária da evangelização. Anunciar o Evangelho exige compreender as linguagens, os valores, as experiências e as perguntas presentes nas diferentes sociedades. A proposta não consiste em modificar o conteúdo essencial da fé para adequá-lo às tendências culturais, mas em encontrar maneiras de comunicá-lo de forma compreensível e significativa.

Nesse processo, a Doutrina Social da Igreja é apontada como uma referência importante para apresentar a dimensão humana e social da mensagem cristã. O texto também valoriza a religiosidade popular, as peregrinações e as confrarias como experiências que continuam contribuindo para a transmissão da fé. Entre outras recomendações, destaca a importância das homilias, das iniciativas de voluntariado e da ampliação dos espaços de participação das mulheres na condução dos processos eclesiais.

Recomeçar pelo encontro com Jesus Cristo

Na conclusão, o Dicastério para a Doutrina da Fé retoma a centralidade do kerygma como fundamento da renovação evangelizadora. O documento parte do convite de Jesus apresentado no Evangelho de Mateus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso”. A partir dessa passagem, propõe que a Igreja redescubra o coração da mensagem cristã e ajude as pessoas a experimentar o encontro pessoal e comunitário com Cristo vivo.

A orientação não significa abandonar a formação doutrinária, os sacramentos ou as práticas pastorais existentes, mas recuperar aquilo que lhes confere sentido. Ao reconhecer as dificuldades enfrentadas na transmissão da fé, o Vaticano propõe que as comunidades cristãs revisitem seus métodos, ampliem o acompanhamento e fortaleçam experiências capazes de gerar pertencimento e compromisso.

O desafio apresentado pelo documento não se limita à continuidade das tradições religiosas entre gerações. Trata-se de criar condições para que a fé seja descoberta, acolhida e vivida como uma experiência significativa no mundo contemporâneo. A mensagem final é um convite à responsabilidade missionária: transmitir aos homens e mulheres de hoje o dom da fé, permitindo que também eles encontrem em Cristo uma fonte de luz, esperança e sentido para a própria existência.

Leia o documento na íntegra: Vinde a Mim — Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época.

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