A pergunta reaparece quando jovens ocupam as ruas: onde estavam essas juventudes? Há algo de revelador nesse espanto. Parte da sociedade parece reconhecê-las politicamente apenas quando seus corpos atravessam avenidas e suas palavras alcançam os noticiários. Antes disso, suas experiências permanecem dispersas aos olhos de quem espera encontrar participação somente nos lugares conhecidos. Perguntar onde estavam exige, portanto, examinar nossa dificuldade de reconhecer uma presença antes que ela se torne multidão.
As mobilizações estudantis do segundo turno de 2026 associaram a defesa da educação pública e da democracia ao apoio à candidatura de Lula. Assembleias, manifestações e articulações digitais deram expressão a esse posicionamento. O reconhecimento de sua dimensão eleitoral, contudo, não encerra a análise. É necessário compreender como a rejeição ao bolsonarismo pôde produzir uma convergência entre militantes, participantes ocasionais e pessoas que mantêm reservas significativas em relação aos partidos.
Uma hipótese orienta esta reflexão: para parte dessas juventudes, a disputa adquiriu o sentido de uma escolha sobre as condições de convivência no país. A questão da corrupção permaneceu relevante, mas se tornou insuficiente para organizar o julgamento político. Estavam em discussão o tratamento das diferenças, a legitimidade do conhecimento científico, a proteção social e os limites impostos ao exercício do poder. É nesse terreno que a expressão “disputa civilizatória” pode ganhar precisão. Seu emprego exige cuidado. Classificar eleitores entre civilizados e bárbaros reproduziria a desumanização que se pretende enfrentar. O conceito é mais produtivo quando interroga princípios de organização da sociedade: a cidadania terá valor universal ou dependerá de pertencimento religioso, identidade e posição social? A divergência será reconhecida como legítima ou convertida em ameaça a ser eliminada? A vulnerabilidade exigirá responsabilidade pública ou será atribuída exclusivamente ao fracasso individual?
O bolsonarismo precisa ser analisado nesse plano. Lucio Rennó, com base em pesquisas de opinião de 2018 a 2022, identifica um alinhamento que articula punitivismo, reação a avanços nos direitos de gênero, liberalismo econômico e resistência a políticas de inclusão. André Singer, examinando o período de 2019 a 2021, investiga a orientação autocrática das mudanças pretendidas pelo governo e o uso de uma metodologia fascista de mobilização. São interpretações fundamentadas, que deslocam o debate do temperamento de um dirigente para seu projeto político. Essa perspectiva ajuda a compreender por que o discurso anticorrupção não resolve a avaliação democrática. A corrupção corrói instituições, desvia recursos e exige investigação independentemente de quem governe. Mas a alegação de combatê-la não legitima a perseguição de adversários, o enfraquecimento dos controles públicos ou a relativização de direitos. Quando a política é reduzida ao confronto entre pessoas supostamente puras e irremediavelmente contaminadas, desaparecem as perguntas sobre programas, interesses e consequências.
A recusa ao bolsonarismo pode, assim, reunir sujeitos sem exigir deles adesão integral ao governo que apoiam eleitoralmente. Trata-se de reconhecer uma assimetria entre projetos quanto à preservação das condições democráticas de conflito. Essa escolha não concede imunidade ao vencedor. Pelo contrário: preservar instituições e liberdades deve ampliar a capacidade de cobrar o governo, inclusive em matéria de corrupção, desigualdade e participação.
A comparação histórica esclarece o problema. Nas Diretas Já, em 1983 e 1984, jovens participaram de uma ampla articulação intergeracional pelo direito de escolher o presidente. Havia uma reivindicação agregadora contra uma interdição autoritária. Como mostra Edison Bertoncelo, a campanha envolveu redes, solidariedades e crenças compartilhadas que ultrapassavam os cálculos partidários. A derrota da emenda Dante de Oliveira demonstrou, entretanto, que a força pública de uma demanda não assegura sua tradução institucional imediata.
Durante os governos Dilma Rousseff, a configuração foi outra. Junho de 2013 não pode ser confundido com as manifestações pelo impeachment e contra ele, em 2015 e 2016. A expansão dos protestos inicialmente vinculados ao transporte reuniu demandas e projetos heterogêneos. Angela Alonso identifica a disputa entre repertórios autonomistas, socialistas e patriotas ao longo desses ciclos. A rua foi um espaço de conflito também entre os manifestantes, e não a expressão de uma vontade nacional indivisível. A diferença importa: juventudes, mobilização e democracia não são termos equivalentes. As avenidas podem abrigar reivindicações de igualdade e pedidos de intervenção autoritária. A análise precisa acompanhar o conteúdo das pautas, as formas de organização e a relação estabelecida com os direitos alheios. Tampouco existe uma linha inevitável entre junho de 2013 e o bolsonarismo. Houve disputas, escolhas e organizações que trabalharam para orientar insatisfações em direções distintas.
Experiências europeias permitem observar outros caminhos dessa transformação. Na França, em 2023, jovens contestaram a reforma previdenciária por razões que incluíam o desgaste dos pais no trabalho e a forma de aprovação da medida. Na Sérvia, após o desabamento da cobertura da estação de Novi Sad, em 2024, estudantes organizaram uma mobilização por responsabilização e contra a corrupção. Em contextos diferentes, questões concretas adquiriram alcance político porque passaram a envolver quem decide e a quem o poder deve responder. A crise, contudo, não produz protesto por mecanismo automático. Pode provocar retraimento e procura por autoridades que prometam restaurar a ordem. Para que uma inquietação se transforme em ação coletiva, é necessário construir relações nas quais as pessoas reconheçam uma experiência compartilhada e alguma possibilidade de intervenção. O encontro altera a percepção da própria força. Uma dificuldade antes vivida como incapacidade pessoal pode ser compreendida como resultado de decisões públicas.
Na filosofia de Hannah Arendt, a ação política depende da pluralidade e da constituição de um mundo comum. Essa contribuição permite compreender a manifestação como experiência em que sujeitos aparecem uns diante dos outros, falam e assumem iniciativas. Sua relevância ultrapassa a contagem de participantes: envolve a possibilidade de reconhecer interlocutores onde antes havia indivíduos isolados.
Por isso, chamar essas juventudes de “massa” pode ocultar o que há de mais significativo em sua participação. Existem lideranças, estratégias eleitorais e tentativas de instrumentalização; a autonomia não deve ser presumida. Ela se verifica na possibilidade de formular pautas, discordar e modificar decisões. Um coletivo se torna sujeito político quando seus integrantes participam da construção do caminho, em vez de apenas fornecer presença e circulação às mensagens de outros. Também não se deve imaginar uma geração homogênea. A etnografia de Rosana Pinheiro Machado e Lucia Mury Scalco, realizada entre jovens de uma periferia de Porto Alegre, mostra como expectativas econômicas, relações de gênero e experiências de reconhecimento atravessam a formação das posições políticas. Seu trabalho impede reduzir a adesão juvenil ao bolsonarismo a uma identidade imutável. A subjetividade política é construída em relações e circunstâncias; compreender seus deslocamentos exige mais do que distribuir rótulos. Essa advertência alcança quem evita o debate partidário. O afastamento pode expressar cansaço, descrédito ou ausência de espaços em que discordar não resulte em hostilidade. Na perspectiva de Juarez Dayrell, reconhecer o jovem como sujeito social exige considerar seus próprios sentidos e suas condições de existência. Quem trabalha durante uma manifestação ou cuida de familiares não pode ter seu compromisso público medido pela presença na avenida. A disponibilidade para participar também é distribuída desigualmente.
As redes sociais ampliam convocações e tornam visíveis experiências antes restritas a determinados círculos. Sua potência depende, porém, das relações que conseguem sustentar. A velocidade de uma publicação não substitui o tempo necessário para negociar prioridades, elaborar divergências e assumir responsabilidades. A passagem da adesão à organização é um dos desafios centrais para a continuidade do que se manifesta nas ruas. É também onde começa a responsabilidade das instituições. Lula agradeceu às juventudes que foram às ruas defender a democracia; Alckmin igualmente as saudou. O reconhecimento será politicamente consequente se alcançar os lugares onde se definem prioridades. Governos, partidos, universidades e organizações sociais precisarão conviver com jovens que questionem suas escolhas. Às gerações mais velhas caberá admitir que compartilhar poder implica perder o controle exclusivo sobre os resultados da participação.
Políticas de juventude, educação e cultura são parte dessa construção. Permanência estudantil, cuidado em saúde mental, equipamentos culturais e financiamento de iniciativas juvenis ampliam recursos para interpretar o mundo e intervir nele. O Estatuto da Juventude prevê participação na formulação, execução e avaliação das políticas, com voz e voto nos espaços decisórios. Sua efetivação requer orçamento e condições de acesso: uma cadeira num conselho pouco significa para quem não consegue chegar à reunião ou influenciar sua pauta. O desafio posterior à eleição será transformar a recusa de um projeto autoritário numa experiência democrática capaz de melhorar a vida. O antibolsonarismo pode produzir convergência, mas não dispensa a formulação de alternativas para o trabalho precário, a desigualdade, a violência e o esvaziamento dos serviços públicos. Se essas experiências permanecerem sem resposta, o ressentimento continuará disponível a quem promete pertencimento pela produção de inimigos. A democracia precisa demonstrar que a participação tem consequências.
As juventudes que foram às ruas não assumiram a obrigação de redimir o país. Tornaram visível uma disposição de agir quando o presente e o futuro pareceram ameaçados. O alcance dessa disposição será medido na capacidade de sustentar vínculos, defender direitos para além do próprio grupo e cobrar coerência de seus aliados. Para as instituições, o teste será aceitar que o bem comum não pode ser definido antecipadamente por quem já ocupa o poder. Ele se constrói no conflito público entre sujeitos reconhecidos como iguais. É nessa passagem da presença celebrada à decisão compartilhada que se saberá quanto da democracia defendida nas ruas poderá efetivamente entrar na vida do país.









