Referência aos jovens

Santo Inácio de Loyola: o peregrino que ensina os jovens a reconhecer Deus nos próprios sentimentos

Fundador da Companhia de Jesus, Inácio continua a inspirar novas gerações por sua capacidade de sonhar, enfrentar desafios, construir amizades e discernir os movimentos interiores. Para o jesuíta Jesús Zaglul Criado, sua experiência revela que a fé não afasta as pessoas da realidade, mas as impulsiona a transformar o mundo

Da redação com IHU Unisinos

Sonhar com grandes realizações, enfrentar desafios, cultivar amizades profundas e encontrar sentido para a própria existência. Essas experiências, tão presentes na vida das juventudes, também marcaram a trajetória de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Mais de quatro séculos após sua morte, sua história continua oferecendo caminhos para compreender os sentimentos, reconhecer a presença de Deus na vida cotidiana e transformar inquietações pessoais em compromisso com os outros. Essa relação entre a espiritualidade inaciana e as novas gerações foi destacada pelo jesuíta Jesús Zaglul Criado, em entrevista concedida ao Vatican News, publicada em 31 de julho de 2021 e reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

Ao apresentar a figura de Inácio, o religioso destacou características que ajudam a compreender a atualidade de seu testemunho: a capacidade de sonhar, a coragem diante das dificuldades, a disposição para permanecer em caminho, a experiência da amizade e a profundidade da vida interior. Para Zaglul, a trajetória do santo revela que o encontro com Deus não acontece à margem das experiências humanas, mas também por meio dos desejos, sentimentos e movimentos que atravessam a existência.

Um sonhador que aprendeu a transformar seus desejos

Antes de se tornar fundador de uma ordem religiosa, Inácio de Loyola alimentava grandes ambições. Sonhava com a vida de cavaleiro, com reconhecimento e com realizações que lhe garantissem prestígio. Sua conversão não eliminou a capacidade de sonhar, mas transformou a direção de seus desejos. Segundo Jesús Zaglul, Inácio continuou sendo um homem movido por grandes projetos. Depois de sua experiência de conversão, passou a desejar seguir Jesus e realizar obras que expressassem sua fé.

O sonho de reunir companheiros para compartilhar essa missão tornou-se uma das marcas mais importantes de sua trajetória. “Era um grande sonhador, tanto no seu sonho de se tornar cavaleiro quanto, após a sua conversão, no sonho de seguir Jesus fazendo coisas ainda maiores que os santos”, explicou o jesuíta. A experiência de Inácio demonstra que o amadurecimento espiritual não exige abandonar os próprios sonhos. Envolve aprender a reconhecê-los, compreender suas motivações e descobrir de que maneira podem ser colocados a serviço de algo maior.

Inácio de Loyola após sofrer o acidente na Guerra de Pamplona. Foi atingido de raspão por uma bala de canhão/ foto: Ateliê15 via Jesuítas Brasil

A coragem de enfrentar dificuldades e recomeçar

A trajetória de Santo Inácio também foi marcada por obstáculos, incompreensões e mudanças de direção. Sua peregrinação passou por lugares como Loyola, Manresa, Jerusalém e Roma, em um percurso que exigiu perseverança diante de dificuldades pessoais e circunstâncias adversas. Zaglul destaca que Inácio não se limitava a formular grandes ideias. Procurava os meios concretos para realizá-las, mobilizando sua disposição interior e suas capacidades práticas. Nem sempre suas propostas foram compreendidas pelas pessoas de seu tempo. O caminho que percorreu incluiu resistências e experiências de sofrimento.

Entretanto, essas dificuldades não o impediram de continuar buscando respostas para o chamado que reconhecia em sua vida. A capacidade de enfrentar desafios, nesse sentido, aparece como uma dimensão importante de sua espiritualidade: discernir não significa esperar por condições ideais, mas aprender a reconhecer possibilidades e assumir decisões responsáveis diante da realidade.

Inácio de Loyola é conhecido como “O Peregrino”/Foto: Ateliê15 via Jesuítas Brasil

O peregrino que compreendeu a vida como caminho

Na narrativa de sua autobiografia, Santo Inácio é apresentado como o peregrino. A expressão sintetiza uma maneira de compreender a existência: alguém que permanece em movimento, aberto à descoberta e disposto a rever os próprios caminhos. Sua viagem a Jerusalém, motivada pelo desejo de conhecer os lugares percorridos por Jesus, revela a intensidade dessa busca. Ao longo de sua trajetória, Inácio foi percebendo que seus desejos precisavam dialogar com as possibilidades concretas da vida. A experiência de peregrinação tornou-se, assim, mais do que um deslocamento geográfico. Representou um processo de amadurecimento humano e espiritual.

Segundo Zaglul, essa caminhada conduziu Inácio e seus primeiros companheiros à decisão de se colocarem à disposição do Papa, para serem enviados aos lugares onde sua missão fosse mais necessária. A liberdade de partir, permanecer ou mudar de direção passou a estar relacionada à busca da vontade de Deus e à disponibilidade para servir.

Inácio de Loyola reconhece na amizade, lugar de encontro com Deus. Se reconhecem como “Amigos no Senhor”/ Foto: Ateliê15 via Jesuítas Brasil

A amizade como fundamento da missão

Outro elemento essencial da experiência inaciana é a descoberta de que a missão não precisa ser vivida individualmente. Inácio compreendeu que o caminho ao qual se sentia chamado deveria ser compartilhado com outras pessoas. Assim nasceu o grupo dos primeiros companheiros, que se reconheciam como “amigos no Senhor”. A expressão revela uma compreensão da amizade marcada pela liberdade, pelo afeto e pela experiência comum da fé.

Segundo Jesús Zaglul, mesmo quando os companheiros passaram a viver em lugares diferentes, permaneceram unidos por projetos, vínculos e pela experiência do amor de Deus. O que sustentava a unidade do grupo não era apenas uma organização institucional, mas uma relação de amizade construída a partir do encontro com Cristo. Os Exercícios Espirituais tiveram papel fundamental nesse processo, ajudando os companheiros a desenvolver uma atitude permanente de discernimento, tanto nas escolhas pessoais quanto nas decisões comunitárias.

A experiência demonstra que a espiritualidade inaciana não se limita ao desenvolvimento da vida interior individual. Ela também favorece relações de confiança, corresponsabilidade e compromisso com uma missão compartilhada.

Reconhecer os sentimentos para compreender os movimentos de Deus

Entre as contribuições mais significativas de Santo Inácio está sua atenção à vida interior. Para Jesús Zaglul, a profundidade espiritual não consiste apenas em refletir sobre a própria história, mas em aprender a contemplá-la a partir do olhar de Jesus. Isso significa reconhecer o amor de Deus presente na existência e perceber como Ele se comunica com cada pessoa.

O jesuíta chega a estabelecer uma aproximação entre a experiência inaciana e aquilo que atualmente se compreende como inteligência emocional. “Acredito que Inácio foi o descobridor da inteligência emocional, porque percebeu que Deus nos fala por meio das emoções”, afirmou. A comparação destaca a importância que Inácio atribuía aos sentimentos e aos movimentos interiores no processo de discernimento.

Ao observar suas próprias experiências, o santo percebeu que nem todos os desejos produzem os mesmos frutos. Alguns movimentos conduzem a uma alegria profunda e duradoura, associada à generosidade e à abertura para o bem. Outros podem oferecer uma satisfação imediata, mas deixar a pessoa interiormente vazia. A atenção a essas diferenças tornou-se fundamental para sua compreensão da vida espiritual. Segundo Zaglul, Inácio descobriu que os movimentos que impulsionam a pessoa para o bem estão relacionados a uma alegria que permanece e favorece uma dedicação generosa. Essa percepção não significa considerar qualquer emoção agradável como sinal da vontade de Deus. O discernimento exige reconhecer a origem, a direção e os frutos dos movimentos interiores.

Vídeo produzido pela Província dos Jesuítas no Brasil por ocasião do Ano Inaciano.

O encontro com Jesus transforma a maneira de viver

No centro da espiritualidade de Santo Inácio está a experiência de um encontro pessoal com Jesus Cristo. Para Zaglul, essa relação foi decisiva na transformação da vida do peregrino de Loyola. “O que sempre me marcou até hoje é o poder do encontro pessoal com Jesus na vida de Inácio”, afirmou. O jesuíta recordou um episódio narrado na autobiografia do santo, quando Inácio atravessava um período de tristeza, confusão interior e escrúpulos. Na ocasião, recebeu a orientação de uma mulher idosa, que o incentivou a pedir a Deus a graça de conhecer pessoalmente Jesus Cristo. A experiência marcou profundamente sua caminhada espiritual. Segundo a narrativa, Inácio reconheceu posteriormente a importância daquela mulher, que o ajudou a compreender a centralidade do encontro com Cristo.

Essa perspectiva também constitui o coração dos Exercícios Espirituais. A proposta não consiste apenas em conhecer acontecimentos da vida de Jesus, mas em contemplá-los e estabelecer com Ele uma relação pessoal de amizade. Ao longo desse itinerário, a pessoa é convidada a conhecer Jesus mais profundamente, amá-lo e segui-lo. Para Zaglul, existe uma diferença importante entre imitar e seguir Cristo. O seguimento envolve reconhecer sua presença na própria história e permitir que essa relação transforme as escolhas, os sentimentos e a maneira de viver.

Contemplar o mundo com o olhar de Deus

Os Exercícios Espirituais propõem um caminho de oração que envolve a contemplação das cenas evangélicas e o diálogo pessoal com Jesus. Entre essas experiências, Zaglul destaca a contemplação da Encarnação, na qual a pessoa é convidada a perceber o olhar de Deus sobre a humanidade. Nessa cena, Deus contempla o mundo e decide assumir a condição humana, aproximando-se radicalmente da realidade das pessoas.

Essa maneira de rezar ajuda a compreender uma das características centrais da espiritualidade inaciana: a presença de Deus não está restrita aos espaços religiosos ou aos momentos formais de oração. A experiência espiritual também se desenvolve no encontro com os outros, nas decisões cotidianas e na atenção aos acontecimentos da sociedade. Ao relacionar essa perspectiva ao pensamento do jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, Zaglul recorda a compreensão de que toda a realidade pode ser reconhecida como lugar da presença de Deus. A contemplação, portanto, não representa uma fuga do mundo. Ela contribui para desenvolver um olhar mais atento à realidade e às necessidades humanas.

Jovens inacianos/ Foto: Arquivo MAGIS Brasil

Uma espiritualidade que continua a dialogar com as juventudes

Ao apresentar Santo Inácio de Loyola às novas gerações, Jesús Zaglul destaca uma experiência espiritual que integra sonhos, afetos, amizades, liberdade e compromisso com a transformação da sociedade. O percurso do fundador da Companhia de Jesus revela que a fé cristã pode dialogar com as inquietações humanas e ajudar as pessoas a reconhecerem seus desejos mais profundos.

A espiritualidade inaciana oferece, nesse sentido, um itinerário de autoconhecimento e discernimento que não termina na interioridade. A atenção aos sentimentos e a experiência do encontro com Cristo conduzem à responsabilidade diante dos outros e à disposição para participar da transformação do mundo. Para Zaglul, o seguimento de Jesus é vivido como uma experiência pessoal e comunitária, na qual a amizade, a oração e o discernimento ajudam a reconhecer os caminhos da missão. A história de Inácio permanece significativa para os jovens justamente porque não apresenta uma trajetória sem dúvidas ou dificuldades. Revela a experiência de alguém que precisou rever seus projetos, enfrentar limites, aprender com os próprios sentimentos e descobrir novos sentidos para a vida.

Sua contribuição continua atual ao recordar que os sonhos podem amadurecer, que a fé exige liberdade e que o encontro com Deus revela sua expressão concreta no amor e no serviço aos outros.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com base em entrevista de Manuel Cubías ao jesuíta Jesús Zaglul Criado, publicada pelo Vatican News em 31 de julho de 2021. Tradução de Luisa Rabolini.

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