O Papa Leão XIV inicia nesta sexta-feira, 6 de novembro, sua mais longa viagem apostólica desde o início do pontificado. Durante 12 dias, o Pontífice percorrerá Uruguai, Argentina e Peru, em uma visita que reúne encontros pastorais, compromissos institucionais e gestos de atenção às populações mais vulneráveis. Mais do que uma agenda internacional, a viagem representa o retorno de Robert Prevost à região onde construiu parte significativa de sua trajetória religiosa.
Essa é a perspectiva apresentada pelo jesuíta Antonio Spadaro, ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado pelo Global Catholic, em 4 de novembro, e reproduzido pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU) nesta quinta-feira (5). Segundo Spadaro, a visita possui três grandes desafios: as exigências físicas de um itinerário extenso, as tensões políticas dos países visitados e a necessidade de preservar o caráter pastoral da missão pontifícia em um contexto de forte repercussão pública. A programação prevê 12 voos e duas transferências de helicóptero. Sete dos 12 dias serão dedicados ao Peru, país onde Leão XIV viveu por quase duas décadas, primeiro como missionário agostiniano e, posteriormente, como bispo de Chiclayo.
Um retorno às raízes de sua experiência pastoral
Embora tenha nascido nos Estados Unidos, Leão XIV mantém uma relação profunda com a América Latina. Sua experiência missionária no Peru marcou sua formação e sua maneira de compreender a vida da Igreja. Foi nesse país que Robert Prevost desenvolveu grande parte de seu ministério, estabeleceu vínculos com comunidades locais e adquiriu a cidadania peruana.
Para Spadaro, o significado da viagem está justamente nessa relação pessoal e pastoral. O Pontífice não retorna apenas como chefe da Igreja Católica, mas como alguém que conhece a realidade das comunidades que irá visitar. No Peru, a programação inclui uma celebração nos Pampas de Pimentel, nas proximidades de Chiclayo, uma passagem por Cusco e uma missa em Pucallpa, na Amazônia. A presença na região amazônica ganha especial relevância diante dos desafios sociais, ambientais e eclesiais que atravessam o território. O itinerário também revela uma escolha pastoral: aproximar o Papa de comunidades e realidades que nem sempre ocupam o centro das decisões políticas e econômicas.
Argentina e Uruguai: duas realidades distintas
A passagem pela Argentina possui um significado particular por se tratar do país natal do Papa Francisco. Durante os 12 anos de seu pontificado, Francisco não realizou uma visita apostólica à Argentina. Agora, seu sucessor chega ao país em um contexto marcado por debates sobre políticas econômicas, proteção social e o papel da Igreja na sociedade. Para Spadaro, a visita também será uma oportunidade de reafirmar a continuidade de preocupações pastorais presentes no pontificado anterior, especialmente a atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade. No Uruguai, o cenário é diferente. O país apresenta uma das realidades mais secularizadas da América Latina.
O artigo destaca a redução da proporção de católicos, de aproximadamente 60% para 33%, e recorda que o Natal é oficialmente denominado Dia da Família. A visita pontifícia acontece, portanto, em uma sociedade na qual a presença institucional da religião possui características distintas das observadas em outros países latino-americanos. Nesse contexto, a passagem de Leão XIV também coloca em evidência os desafios da evangelização e do diálogo da Igreja com sociedades marcadas pela secularização.
Uma agenda exigente e a atenção à saúde do Papa
O primeiro desafio apontado por Spadaro diz respeito às condições físicas necessárias para cumprir o itinerário. Segundo o artigo, Leão XIV passou por uma cirurgia para tratar um adenocarcinoma pulmonar em 13 de outubro e recebeu autorização médica para viajar cerca de duas semanas depois. Apesar disso, a programação foi mantida, incluindo deslocamentos frequentes e uma passagem por Cusco, cidade localizada a aproximadamente 3.350 metros de altitude. O autor considera que essas circunstâncias devem ampliar a atenção pública sobre o andamento da visita.
“Esta será a viagem mais acompanhada de perto de seu pontificado: cada pausa, cada mudança na programação, será interpretada como um sinal da saúde do Papa”, escreve.
A avaliação é de Spadaro e não representa, por si só, uma indicação de que o Pontífice enfrentará dificuldades durante a viagem. O ritmo da programação, entretanto, constitui um elemento importante para compreender a dimensão logística e pastoral do deslocamento.
O encontro com Milei e os desafios sociais na Argentina
A dimensão política da viagem aparece especialmente na passagem pela Argentina, onde Leão XIV deverá se encontrar com o presidente Javier Milei. A relação entre o governo argentino e setores da Igreja tem sido marcada por divergências relacionadas às políticas econômicas e sociais.
Spadaro recorda declarações críticas feitas anteriormente por Milei contra o Papa Francisco e menciona as preocupações de bispos argentinos com os efeitos dos cortes orçamentários sobre as populações vulneráveis. Nesse contexto, a visita ao Cottolengo, em Claypole, ganha significado particular. A instituição acolhe mais de 300 pessoas com deficiência e representa uma realidade diretamente relacionada ao cuidado social e à proteção daqueles que dependem de serviços e políticas de assistência. Para o autor, a escolha desse espaço comunica uma prioridade pastoral sem exigir que o Papa participe diretamente das disputas partidárias nacionais. A presença junto às pessoas atendidas pela instituição permite colocar no centro da visita questões como dignidade humana, solidariedade e responsabilidade pública.
Peru enfrenta instabilidade política e desafios sociais
No Peru, a viagem ocorre em um cenário de instabilidade institucional. Spadaro observa que o país passou por sucessivas mudanças na Presidência ao longo da última década, situação que contribuiu para aprofundar a desconfiança em relação às instituições políticas. A segurança pública e o enfrentamento da criminalidade também estão entre os temas que marcam o debate nacional. Nesse contexto, o autor considera que a Igreja permanece como uma instituição com capacidade de diálogo e influência junto a diferentes setores da sociedade peruana.
A experiência de Leão XIV no país acrescenta uma dimensão particular a essa relação. Diferentemente de uma visita realizada por alguém que conhece a realidade apenas por meio de informações institucionais, o Pontífice retorna a comunidades nas quais viveu e exerceu responsabilidades pastorais. Essa proximidade pode conferir maior significado aos encontros com autoridades, lideranças religiosas e populações locais.
A viagem também recoloca a questão dos abusos na Igreja
Entre os temas sensíveis mencionados por Spadaro está o enfrentamento dos abusos no âmbito eclesial. O artigo assinala que a visita renova a atenção para denúncias de abusos clericais na Argentina e menciona a previsão de encontros relacionados ao tema, sem detalhar sua programação ou os participantes. A questão representa um desafio para a credibilidade institucional da Igreja e para sua responsabilidade diante das vítimas.
Embora o texto não apresente informações adicionais sobre possíveis medidas ou decisões, a referência evidencia que a viagem também ocorre em meio a demandas por escuta, responsabilização e proteção.
Para Antonio Spadaro, o terceiro desafio da viagem está na maneira como a presença do Papa será interpretada. Os bispos argentinos, segundo o autor, insistem na importância de acolher Leão XIV como pastor, e não como protagonista das disputas políticas nacionais. Entretanto, o próprio perfil do Pontífice confere à visita uma dimensão internacional singular. Nascido nos Estados Unidos e naturalizado peruano, Leão XIV reúne experiências de dois contextos que mantêm relações históricas, econômicas e políticas complexas. Spadaro considera que essa trajetória faz do Papa uma figura capaz de estabelecer pontes entre o Norte e o Sul do continente.
A dimensão geopolítica, contudo, não se limita aos encontros com autoridades. Ela também se expressa nos lugares escolhidos para a programação: uma prisão, um bairro periférico, uma instituição de acolhimento e um território amazônico. Esses espaços permitem compreender a viagem a partir de suas prioridades pastorais. Ao visitar comunidades vulneráveis e regiões frequentemente afastadas dos centros de poder, Leão XIV poderá colocar em evidência realidades que exigem atenção social e política. Para Spadaro, a força da viagem estará menos em eventuais pronunciamentos sobre governos e mais na capacidade dos gestos pontifícios de comunicar uma visão de Igreja próxima das pessoas.
O retorno de Leão XIV à América Latina reúne, assim, memória pessoal, continuidade pastoral e desafios contemporâneos. Entre encontros diplomáticos e celebrações religiosas, a viagem também será observada pela maneira como o Pontífice dialogará com as desigualdades, a secularização e as tensões sociais da região. Mais do que percorrer três países, Leão XIV retorna a um território que ajudou a formar sua identidade como pastor. E é justamente essa experiência que, na análise de Spadaro, confere à visita um significado particular para o início de seu pontificado.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com base em artigo de Antonio Spadaro, jesuíta e ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, publicado pelo Global Catholic em 4 de novembro de 2026.
