Criatividade humana ameaçada?

“O verdadeiro perigo não é a IA, mas a ausência humana”, afirma psicóloga

Em entrevista, a psicóloga Mercè Conangla alerta para os riscos de delegar à inteligência artificial decisões, emoções e relações pessoais. Para a pesquisadora, o desafio não é rejeitar a tecnologia, mas preservar a autonomia, o pensamento crítico e a capacidade humana de estabelecer vínculos.

Da redação com IHU Unisinos

Canva Pró

A inteligência artificial está transformando a maneira como as pessoas trabalham, aprendem, se comunicam e tomam decisões. Mas, enquanto as máquinas se tornam cada vez mais capazes de executar tarefas complexas, uma questão ganha importância: o que acontece com as capacidades humanas quando passamos a transferir para a tecnologia parte de nossa memória, atenção, criatividade e discernimento? A reflexão está no centro do livro La consciencia artificial, dos psicólogos Mercè Conangla e Jaume Soler. Em entrevista à jornalista Mariana Toro Nader, publicada pela revista Ethic em 29 de outubro e reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), Conangla aborda o conceito de “consciência delegada” e os riscos de uma relação com a tecnologia marcada pela dependência e pela perda progressiva de autonomia.

Para a psicóloga, o problema não está simplesmente no avanço da inteligência artificial, mas na possibilidade de que os seres humanos deixem de exercitar capacidades fundamentais para compreender a realidade, construir relações e fazer escolhas conscientes.

“O verdadeiro perigo não é a IA, mas a ausência humana”, afirma.

A pesquisadora defende que o desenvolvimento tecnológico precisa ser acompanhado por um amadurecimento ético capaz de orientar suas aplicações e preservar a centralidade da pessoa humana.

O que é a consciência delegada?

Um dos conceitos apresentados por Conangla é o de consciência delegada, entendido como o processo pelo qual as pessoas transferem para sistemas tecnológicos funções que tradicionalmente dependiam de sua própria atividade mental e emocional. Isso acontece, por exemplo, quando alguém deixa de exercitar a memória porque armazena todas as informações em dispositivos, aceita recomendações algorítmicas sem questionamento ou utiliza a inteligência artificial para decidir como responder a uma conversa pessoal. Segundo a psicóloga, essa transferência pode alcançar dimensões cada vez mais profundas da experiência humana.

“A consciência delegada é o processo pelo qual transferimos a sistemas externos algumas funções humanas, como a memória, a atenção, a orientação de nossas emoções, o juízo e a capacidade de discernimento, a tomada de decisões ou até mesmo o propósito de vida”, explica.

A preocupação não significa que o uso dessas ferramentas seja necessariamente prejudicial. O risco aparece quando a tecnologia deixa de funcionar como apoio e passa a substituir sistematicamente o exercício da reflexão e da escolha pessoal. Para Conangla, capacidades que deixam de ser cultivadas podem enfraquecer com o tempo. Nesse cenário, a facilidade proporcionada pela tecnologia pode ser acompanhada por uma redução da autonomia, especialmente quando as pessoas deixam de questionar as respostas recebidas.

A busca por respostas imediatas pode reduzir o pensamento crítico

A disponibilidade permanente de informações e respostas automatizadas também modifica a maneira como as pessoas lidam com dúvidas e incertezas. A psicóloga observa que a inteligência artificial pode oferecer respostas rápidas para questões que antes exigiam pesquisa, comparação de fontes, reflexão e elaboração pessoal. Embora essa facilidade represente um avanço em diversas atividades, ela também pode incentivar uma relação mais passiva com o conhecimento.

Segundo Conangla, existe o risco de substituir o processo de investigação pela aceitação imediata das recomendações apresentadas pelos sistemas. A pesquisadora chama atenção para a importância de preservar a capacidade de sustentar perguntas, reconhecer incertezas e avaliar criticamente as informações disponíveis. A questão torna-se especialmente relevante em uma cultura digital na qual algoritmos participam da seleção de notícias, conteúdos e referências que chegam diariamente às pessoas. Nesse ambiente, o pensamento crítico depende não apenas do acesso à informação, mas da disposição para confrontar perspectivas, verificar fontes e desenvolver interpretações próprias.

A tecnologia aproxima pessoas, mas também pode produzir solidão

Outro aspecto abordado na entrevista é a transformação das relações humanas em um cotidiano cada vez mais mediado por dispositivos digitais. Conangla reconhece que as tecnologias ampliaram as possibilidades de comunicação, mas alerta para situações nas quais a conexão permanente não corresponde a uma experiência efetiva de encontro. Uma família pode permanecer reunida no mesmo ambiente enquanto cada integrante direciona sua atenção para uma tela diferente, por exemplo.

A pesquisadora utiliza a expressão “solidão acompanhada” para descrever essa contradição entre proximidade física e distanciamento relacional. Segundo ela, a comunicação digital também pode reduzir oportunidades de desenvolver habilidades importantes para a convivência, como a escuta, a expressão emocional e a capacidade de lidar com conflitos. A psicóloga menciona situações em que pessoas recorrem à inteligência artificial para elaborar respostas a amigos, familiares ou parceiros afetivos.

Embora essas ferramentas possam ajudar na organização de ideias e na comunicação, seu uso indiscriminado levanta questões sobre a autenticidade das relações. Para Conangla, a experiência humana exige presença, reciprocidade e disposição para lidar com a complexidade dos vínculos. O contato com outras pessoas envolve diferenças, frustrações e situações imprevisíveis que não podem ser eliminadas sem comprometer aspectos importantes da convivência.

Inteligência artificial não substitui o acompanhamento psicológico

A utilização de ferramentas de inteligência artificial para conversar sobre problemas emocionais também foi discutida na entrevista. Conangla reconhece que algumas pessoas encontram nesses sistemas um espaço acessível para expressar sentimentos, especialmente quando enfrentam solidão ou dificuldades financeiras para buscar atendimento psicológico. Em determinadas circunstâncias, a organização dos pensamentos e o desabafo podem oferecer algum alívio. Entretanto, a pesquisadora considera necessário distinguir esse tipo de interação do acompanhamento realizado por profissionais de saúde mental. Segundo ela, a inteligência artificial pode produzir respostas que parecem empáticas, mas não possui a experiência humana do sofrimento, da perda ou da vulnerabilidade.

“A IA simula empatia, mas não a desenvolveu realmente”, afirma.

A psicóloga alerta especialmente para situações de sofrimento psicológico intenso, nas quais a avaliação e o acompanhamento de profissionais qualificados são fundamentais. Nesses casos, substituir o cuidado especializado por respostas automatizadas pode representar riscos. A reflexão aponta para a necessidade de utilizar a tecnologia como recurso complementar, sem confundir sua capacidade de produzir linguagem acolhedora com a experiência de uma relação terapêutica humana.

Criatividade humana também precisa ser exercitada

A entrevista aborda ainda os impactos da inteligência artificial sobre as atividades criativas. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e outros conteúdos em poucos segundos estão transformando diferentes profissões e processos de trabalho. Para Conangla, essas possibilidades não precisam ser compreendidas exclusivamente como ameaças. A tecnologia pode contribuir para ampliar a produtividade e oferecer novos recursos de criação. A preocupação está na possibilidade de que as pessoas deixem de participar ativamente dos processos criativos.

Segundo a psicóloga, a criatividade envolve experiências pessoais, imaginação, elaboração de ideias e capacidade de construir soluções originais. Quando essas etapas são inteiramente transferidas para sistemas automatizados, existe o risco de enfraquecer habilidades que dependem de exercício constante.

“O músculo da criatividade também atrofia se não o exercitamos”, observa.

A pesquisadora defende que a inteligência artificial permaneça subordinada à orientação humana, funcionando como instrumento de apoio, e não como substituta da capacidade de imaginar, experimentar e produzir sentido. Ela também manifesta preocupação com a possível padronização estética de conteúdos produzidos por ferramentas generativas, embora essa avaliação não signifique que toda criação assistida por inteligência artificial seja necessariamente menos original.

Algoritmos influenciam escolhas e a construção da identidade

A presença dos algoritmos no cotidiano ultrapassa a seleção de informações. Plataformas digitais recomendam músicas, filmes, produtos, destinos turísticos, perfis e conteúdos com base em padrões de comportamento e preferências identificadas pelos sistemas. Para Conangla, essa influência precisa ser observada com atenção, especialmente quando as recomendações passam a orientar decisões sem reflexão consciente. A pesquisadora argumenta que a construção da identidade pessoal está relacionada às experiências, aos valores e às escolhas que cada indivíduo desenvolve ao longo da vida. Quando parte significativa dessas escolhas passa a ser conduzida automaticamente, a autonomia pode ser comprometida. Outro ponto destacado é a disputa pela atenção.

A exposição constante a estímulos digitais pode dificultar momentos de concentração, reflexão e presença nas atividades cotidianas. Conangla relaciona essa dinâmica à necessidade de recuperar a atenção profunda e a capacidade de avaliar as consequências das próprias decisões. Para ela, escolher de maneira responsável exige considerar não apenas a conveniência imediata, mas também os impactos pessoais, sociais e éticos de cada ação.

O desafio é desenvolver uma consciência mais crítica

Na parte final da entrevista, Conangla apresenta a necessidade de cultivar a consciência humana como resposta aos desafios da inteligência artificial. A pesquisadora compreende a consciência como uma experiência construída a partir de diferentes dimensões: memória, linguagem, emoções, vínculos, experiências corporais e relações com o mundo. Esses elementos ajudam as pessoas a interpretar a realidade, desenvolver uma narrativa sobre a própria vida e estabelecer critérios para suas escolhas.

O problema, segundo ela, é que uma parcela crescente dos estímulos que participam desse processo passa por sistemas de seleção algorítmica. Por isso, torna-se necessário prestar atenção à qualidade das informações e experiências que alimentam a consciência. No livro, os autores apresentam a proposta de uma “pirâmide da nutrição da consciência”, que reúne dimensões consideradas importantes para preservar a autonomia humana. Entre elas estão o cuidado com a memória significativa, o desenvolvimento de uma atenção presente, a elaboração das emoções, o exercício do pensamento crítico e a construção de um sentido de vida escolhido livremente. A proposta não pressupõe abandonar a tecnologia, mas estabelecer uma relação mais consciente com suas possibilidades e limites.

Mais tecnologia exige mais responsabilidade humana

Ao longo da entrevista, Mercè Conangla rejeita tanto o medo indiscriminado da inteligência artificial quanto o entusiasmo que desconsidera seus possíveis impactos. Para a psicóloga, o avanço tecnológico exige uma reflexão proporcional sobre as responsabilidades humanas envolvidas em seu desenvolvimento e utilização. As decisões sobre o funcionamento, os objetivos e os limites dessas ferramentas não são apenas questões técnicas. Também envolvem valores, consequências sociais e escolhas éticas. Nesse sentido, a pesquisadora considera que o principal desafio contemporâneo não está exclusivamente em produzir máquinas mais sofisticadas, mas em desenvolver uma consciência humana capaz de orientar seu uso.

“O próximo salto evolutivo não é o tecnológico, mas o ético”, afirma.

A reflexão aponta para uma questão que ultrapassa o debate sobre inteligência artificial: como preservar a liberdade, a criatividade, o discernimento e a qualidade das relações humanas em uma sociedade cada vez mais automatizada? Para Conangla, a resposta não está em rejeitar os avanços tecnológicos, mas em recuperar o protagonismo humano diante deles.

“Cuidar da consciência não significa rejeitar a tecnologia, mas usá-la sem desaparecer nela”, conclui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com base em entrevista de Mariana Toro Nader com Mercè Conangla, publicada pela revista Ethic em 29 de outubro de 2026.

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