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Uma Igreja que conhece seus nomes

Há uma escolha muito bonita na mensagem do Papa Leão XIV para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Diante de uma realidade que quase sempre nos chega acompanhada de números, fronteiras, crises humanitárias e grandes deslocamentos, o Papa escolheu colocar uma criança no centro. O tema deste ano, “Mesmo uma só destas crianças” (cf. Mt 18,10), nasce das palavras de Jesus no Evangelho: “Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe” (Mt 18,5)

Em um contexto onde os discípulos estavam preocupados em saber quem seria o maior no Reino dos Céus, o gesto de Jesus de colocar uma criança no meio deles merece especial atenção porque muda o lugar de onde aquela conversa deveria começar. É uma cena simples, mas profundamente desconcertante. Para compreender o Reino, era preciso olhar para quem normalmente não ocupava o centro.

A mensagem de Leão XIV nos convida a fazer esse mesmo movimento diante das migrações. Antes das categorias que usamos para compreender o fenômeno, existe uma pessoa. Antes de dizermos migrante, refugiada, solicitante de refúgio, estrangeira, há uma criança com nome, história, lembranças, medos, afetos e desejos. Uma criança que brincava em algum lugar antes de partir, que tinha amigos, que reconhecia os sons de sua rua, os sabores da comida de casa e o jeito próprio de sua família falar. Migrar também atravessa tudo isso.

Para uma criança, uma fronteira nunca é apenas uma linha entre dois países. Pode significar deixar a escola, despedir-se de alguém sem saber quando haverá reencontro, aprender outra língua, estranhar uma nova comida, entrar numa sala de aula onde ninguém sabe pronunciar seu nome. Algumas crianças carregam ainda experiências muito mais duras: violência, separação da família, exploração,

viagens perigosas e perdas que nenhuma infância deveria conhecer. Leão XIV recorda que não podemos nos acostumar com esse sofrimento. Ao mesmo tempo, sua mensagem não permite que reduzamos essas crianças à condição de vítimas. Elas continuam sendo crianças. Precisam de proteção, mas também precisam brincar, aprender, criar vínculos, fazer perguntas, sonhar e participar. E esse olhar profundamente evangélico tem muito a dizer às nossas comunidades cristãs.

Podemos começar por perguntas bastante concretas. Quantas famílias migrantes e refugiadas vivem no território de nossas paróquias? Sabemos onde estão? Seus filhos participam da catequese, dos grupos de jovens, das pastorais, das escolas de nossas comunidades? Conhecemos seus nomes? Já escutamos suas histórias? E, quando essas famílias vivem perto de nós, mas não chegam às nossas comunidades, convém perguntar também por quê.

Às vezes falamos de acolhida como se ela acontecesse simplesmente porque as portas da igreja estão abertas. Mas uma porta aberta não significa necessariamente que alguém se sinta convidado a entrar. Há barreiras que não aparecem na arquitetura: a língua, os costumes, o medo de não ser compreendido, a sensação de ser sempre visto como alguém de fora. Há também nossas próprias dificuldades em perceber quem chegou e em permitir que sua presença transforme alguma coisa em nós. Acolher, nesse sentido, não é somente oferecer algo. É criar condições para que o outro possa pertencer.

Experiências como a Rede Internacional Infâncias Protagonistas: Migração, Arte e Educação ajudam a perceber a importância desse passo. Ao trabalhar com crianças e adolescentes migrantes e refugiados a partir da escuta, da arte, da educação e de suas próprias narrativas, a iniciativa recorda algo fundamental: a criança não é apenas destinatária do nosso cuidado. Ela tem voz, tem memória, interpreta aquilo que viveu. Pode dizer o que sente e também participar da construção dos espaços onde está chegando.

Para a Igreja, isso toca uma dimensão muito profunda da evangelização. Não acolhemos uma criança somente porque somos pessoas generosas ou porque a caridade cristã recomenda que ajudemos quem sofre. Jesus foi mais longe: “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5). Há uma dimensão sacramental nessa acolhida. No pequeno, naquele que

depende do cuidado de outros e naquele que facilmente passa despercebido, o próprio Cristo se deixa encontrar.

É significativo que a Igreja no Brasil esteja se preparando para viver, em 2027, uma Campanha da Fraternidade dedicada justamente ao cuidado das crianças. O tema será “Fraternidade e o Cuidado das Crianças” e o lema retoma o mesmo versículo do Evangelho segundo Mateus: “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5). Essa coincidência entre a mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado e a próxima Campanha da Fraternidade abre um caminho pastoral que não deveríamos deixar passar.

Quando falarmos do cuidado das crianças em nossas comunidades, as crianças migrantes e refugiadas precisam estar dentro dessa conversa. Não como um grupo à parte, acrescentado no final de nossas preocupações, mas como parte das infâncias que Deus confiou ao nosso cuidado. Sua presença também pode ensinar nossas comunidades a serem mais católicas no sentido mais bonito da palavra: comunidades capazes de reconhecer que a fé não apaga línguas, histórias e culturas, mas reúne diferentes povos ao redor da mesma mesa.

A própria infância de Jesus guarda a memória de uma família obrigada a partir. Diante da ameaça de Herodes, José toma o menino e sua mãe e parte para o Egito (Mt 2,13-15). É importante não transformar essa passagem numa imagem romântica da migração. Há medo, ameaça, deslocamento e incerteza naquela fuga. O Filho de Deus conhece, desde os primeiros anos de sua vida, a experiência de ser levado para outra terra porque permanecer significava perigo.

Por isso, quando uma família chega, quando uma criança entra pela primeira vez em nossa igreja, quando escutamos um sotaque diferente na catequese ou percebemos novos rostos entre nós formando a Assembleia, não estamos diante de um problema pastoral a ser resolvido. Estamos diante de uma presença a ser acolhida.

Uma comunidade verdadeiramente acolhedora começa quando a criança migrante deixa de ser apenas “a criança que veio de fora”. Ela passa a ter nome. Sua história encontra quem a escute com o coração. Sua língua não precisa ser motivo de vergonha. Suas raízes podem ser preservadas

enquanto outras começam a crescer e florescer. Ela descobre que também existe um lugar para si na comunidade à qual acaba de chegar.

No próximo domingo, Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, nossas celebrações poderão recordar as muitas crianças que atravessam fronteiras pelo mundo. Mas o Evangelho nos pede um passo a mais. Depois da celebração, será preciso olhar ao redor. Pode ser que uma delas já esteja entre nós. Conhecer seu nome, sua história e sua família pode ser o Evangelho extravasando as paredes da igreja e alcançando a vida da assembleia. É ali que a Palavra se torna concreta: quando ousamos dar lugar mesmo que a uma só destas crianças.

Sobre o autor

Alan Matheus Gloss

Professor e pesquisador

Alan Matheus Rodrigues Gloss é licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e pesquisador nas áreas de teologia pastoral, mobilidade humana, migração e refúgio. Atuou no Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e como secretário-executivo da Rede CLAMOR Brasil, desenvolvendo trabalhos de articulação, formação e incidência em temas relacionados à mobilidade humana e aos direitos das pessoas migrantes e refugiadas. Atualmente, é candidato à Companhia de Jesus (Jesuítas) no Brasil.

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