Nem toda forma de abuso em ambientes religiosos envolve violência física ou sexual. Há situações em que a fé, a autoridade espiritual e até a imagem de Deus são utilizadas para controlar decisões, enfraquecer a autonomia e comprometer a liberdade de consciência. São práticas frequentemente difíceis de identificar, porque podem se apresentar sob a aparência de orientação, obediência ou acompanhamento espiritual.
Para aprofundar a compreensão dessas situações, a Universidade Complutense de Madri (UCM), na Espanha, realizará, nos dias 12 e 13 de novembro, o Congresso Pro+Tejer. O encontro reunirá pesquisadores e profissionais de diferentes áreas para discutir os abusos espirituais, de poder e de consciência, com atenção à prevenção, à escuta das vítimas e à reparação dos danos. A iniciativa é promovida pela Cátedra Extraordinária Pro+Tejer, dedicada à investigação dessas formas de abuso. As informações foram divulgadas pelo portal Religión Digital, em 5 de novembro de 2026.
Quando a autoridade religiosa se transforma em instrumento de dominação
A diretora da Cátedra Pro+Tejer, Rosario González-Martín, define o abuso espiritual como uma relação de dominação estabelecida em contexto religioso, por meio de práticas e referências da própria religião.
“O abuso espiritual é uma relação de dominação exercida em um contexto religioso e por meios religiosos. Muitas vezes, a vítima perde a fé em seu próprio discernimento devido à confusão espiritual na qual foi gradualmente inserida”, explica.
Segundo a pesquisadora, esse processo ocorre quando uma autoridade instrumentaliza o sagrado, a fé e a imagem de Deus para submeter a vontade de outra pessoa. Uma das características mais preocupantes é seu desenvolvimento progressivo. Em vez de um episódio isolado, o abuso pode se estabelecer por meio de práticas repetidas que enfraquecem a capacidade de questionamento e decisão.
“Não é um incidente isolado, mas uma dinâmica progressiva que mina a consciência. O abusador nem sempre está plenamente consciente; às vezes, repete padrões, diretrizes, estilos e práticas que recebeu. Mas ele é responsável”, afirma González-Martín.
Essa observação chama atenção para a necessidade de examinar não apenas comportamentos individuais, mas também práticas institucionais que podem favorecer relações de dependência e submissão. O problema, portanto, não está na experiência religiosa em si, mas na maneira como ela pode ser instrumentalizada para exercer poder sobre a consciência de alguém.
Por que o abuso espiritual é tão difícil de reconhecer?
A identificação dessas situações exige atenção à relação entre crença, identidade e autoridade. A fé e as convicções religiosas frequentemente ocupam um lugar profundo na maneira como as pessoas compreendem a própria existência. Quando essa dimensão é manipulada, a vítima pode encontrar dificuldades para reconhecer a violência e confiar em seu julgamento. Isso ajuda a explicar por que determinadas práticas abusivas permanecem naturalizadas em ambientes religiosos, especialmente quando são justificadas por argumentos relacionados à obediência, à fidelidade ou à vontade de Deus.
A pesquisa desenvolvida pela Cátedra Pro+Tejer procura identificar as condições que tornam essas relações possíveis e elaborar instrumentos de prevenção, detecção e acompanhamento. A dimensão educativa ocupa um lugar central nesse trabalho. Segundo a coordenação, formar pessoas e instituições capazes de reconhecer sinais de abuso é fundamental para que espaços de crescimento espiritual não se transformem em ambientes de controle. O objetivo é fortalecer relações nas quais a autoridade seja exercida com responsabilidade e o acompanhamento religioso respeite a liberdade e a dignidade das pessoas.
Especialistas internacionais discutem prevenção e reparação
O Congresso Pro+Tejer contará com a participação de psicólogos, juristas, canonistas, filósofos, teólogos, educadores e sociólogos. Entre os convidados estão Lisa Oakley, professora de Psicologia da Universidade de Chester, no Reino Unido, reconhecida por suas pesquisas sobre abuso espiritual, e o jesuíta Hans Zollner, especialista em proteção de menores e prevenção de abusos na Igreja. Também participarão o psicólogo Miguel Perlado, pesquisador de dinâmicas sectárias; Carlos Morán, ligado ao Tribunal da Rota; e a psiquiatra Maribel Rodríguez.
A diversidade de especialidades reflete a complexidade do problema. O abuso espiritual envolve dimensões psicológicas, institucionais, jurídicas e religiosas que não podem ser compreendidas isoladamente. Rosario González-Martín destaca que suas causas são multifatoriais e estão sendo investigadas por meio de pesquisas, seminários e parcerias institucionais, incluindo iniciativas desenvolvidas com a CONFER e a REPARA, no âmbito do Projeto ENTRECompasses. A proposta do congresso é reunir diferentes perspectivas para aprimorar as respostas oferecidas às pessoas atingidas e contribuir para a construção de ambientes religiosos mais seguros.
Escutar as vítimas é o primeiro passo para transformar as instituições
Um dos princípios defendidos pela coordenação é que a compreensão do abuso deve começar pelas experiências de quem o sofreu.
“O essencial é reconhecer o que está acontecendo à luz das experiências das vítimas”, afirma González-Martín.
Essa perspectiva desloca o debate de uma preocupação exclusivamente institucional para a realidade das pessoas afetadas. Reconhecer o sofrimento, compreender os mecanismos de dominação e assegurar condições para a recuperação da autonomia são etapas fundamentais do processo de reparação. A pesquisadora também defende a revisão das práticas e dos ambientes nos quais essas relações se desenvolvem. Isso significa que a prevenção não depende apenas de identificar e responsabilizar abusadores. Exige avaliar estilos de liderança, formas de acompanhamento e culturas institucionais que possam favorecer o silenciamento ou a dependência. O desafio é particularmente relevante para comunidades religiosas, instituições educativas e espaços de formação espiritual, nos quais a confiança depositada em lideranças pode criar relações de grande influência sobre a vida pessoal.
Nesse sentido, o congresso propõe uma reflexão que ultrapassa a identificação de condutas abusivas: como construir ambientes nos quais a experiência da fé fortaleça a liberdade, em vez de enfraquecê-la? A resposta passa pela escuta das vítimas, pela responsabilização diante dos abusos e pela revisão de práticas que confundem autoridade com domínio sobre a consciência. Como destaca a diretora da Cátedra Pro+Tejer, a finalidade desse trabalho é renovar os espaços de convivência e crescimento, preservando seus aspectos positivos e enfrentando as dinâmicas que comprometem a dignidade humana.
Fonte: Religión Digital, 5 de novembro de 2026, com informações da Cátedra Extraordinária Pro+Tejer da Universidade Complutense de Madri.
